Domingo, 16 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 5 - Bernardino Garcia & Garcia - O "Capitão"

 

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BERNARDINO GARCIA & GARCIA, o “CAPITÃO”
 
Como disse atrás, não sei se o grupo de maquis do Cambedo era um grupo organizado ou não. Estou em crer que não era e que uns estariam mais envolvidos que outros na guerrilha.
 
Nesta breve descrição dos “três do Cambedo”, começo por aquele que levanta mais polémica e que não tinha qualquer ligação à aldeia, o Capitão Garcia.
 
Bernardino Garcia & Garcia, nascido por volta de 1911 (35 anos na altura dos acontecimentos do Cambedo) morreu no Cambedo em 21 de Dezembro de 1946. Um metro e setenta e cinco de altura, musculado, barba feita, olhos e cabelos castanhos.
 
Além da descrição anterior, o “retrato” deste suposto Capitão Garcia é-nos dado quase na totalidade por Bento da Cruz no livro « Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes, onde relata que «Bernardino Garcia & Garcia é referenciado como fuxido desde o inicio da guerra civil espanhola e guerrilheiro desde 1939. Analfabeto e «bom rapaz» que falava demasiado, diz dele um outro guerrilheiro o Pinche. Pertencia a uma família de pequenos lavradores de Grixoa, Viana do Bolo. Eram cinco irmãos: quatro rapazes e uma rapariga. O mais velho migrou para Bilbau e nunca mais deu sinal de vida, um outro irmão foi chamado às inspecções. Pegou numa corda, disse que ia à lenha e saiu. Encontraram-no dependurado na corda. A irmã arranjou um namorado e ficou grávida. Pegou na navalha de barba dos irmãos e cortou as carótidas. Ficou o mais novo a tratar dos campos e das três vacas do casal. Um dia o Garcia recebeu no monte a notícia de que o irmão falecera, desceu a casa e encontrou um bilhete que pediu ao Pinche que lho lesse. «Não aguento mais esta vida, resolvi envenenar-me», a partir de aí o Garcia andava sempre a rosnar: «qualquer dia mato-me…»
 
…e um dia matou-se, ou talvez não!
 
Ao contrário do Juan, o Garcia tinha uma longa experiência de guerrilha, quase sempre no grupo do Pinche (ou Langulho) como era conhecido. A este (Garcia) são-lhe reconhecidos vários actos de guerrilha, todos em Espanha, aliás à excepção dos acontecimentos de Negrões, não há notícia de que tivessem acontecido actos de guerrilha em Portugal.
 
Com armas, este suposto Capitão Garcia, era um desastre e conhecido de todos pela sua forma atabalhoada de combater, aliás são-lhe atribuídos pelo menos duas mortes acidentais de companheiros seus de guerrilha.
 
Do Demétrio e do Juan já aqui foram explicadas as suas ligações e laços com o Cambedo. Quanto ao Garcia (segundo apurei por testemunhos de gentes do Cambedo), estava na aldeia no dia dos acontecimentos por acidente e a convite de Demétrio, para a matança do porco da família Bárcea e por se encontrar nas redondezas, após um ferimento causado pelo ricochete de uma bala sua, em que ficou com o osso a vista do polegar da mão esquerda. O ferimento ter-se-ia agravado e começou a tomar mau aspecto. Com as farmácias galegas debaixo de olho, o guerrilheiro Pinche resolveu traze-lo para Portugal, para Vinhais (supõe-se) e aí o deixou até se recuperar. Teria sido em Vinhais onde tomou contacto com um grupo de guerrilheiros que deambulava por Sernade, Sanfins da Castanheira, Mosteiró de Cima, Nantes, Curral de Vacas e Cambedo.
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A presença de Garcia no Cambedo não é “pacífica”. As gentes do Cambedo com quem falei, defendem que o Garcia não era habitual no Cambedo e estava lá por mero acaso e para a tal matança do porco, que o Mestre (Bárcea), cunhado do Demétrio, tinha prevista para a manhã dos acontecimentos. Se esta versão (a do porco) é defendida pelos do Cambedo e por alguma escrita sobre o assunto, há no entanto quem defenda outra versão.
 
A guerrilha desde logo considerou um erro político a morte do Pinto de Negrões. Como tal, o comando da guerrilha teria convocado todos os grupos de guerrilheiros para uma reunião a realizar no dia 20 de Dezembro nos respectivos locais de abrigo e, assim se justificaria a presença do Garcia no Cambedo… Se por um lado esta versão vem a justificar os vários cercos que as autoridades portuguesas e espanholas efectuaram nesse dia às várias casas de abrigo em várias aldeias, como Nantes e Mosteiro, por possíveis informações que a PIDE teria dessas reuniões, por outro lado não me parece credível que o comando das guerrilhas reunisse em vários locais em simultâneo, mas antes teria convocado os chefes de cada grupo de guerrilha para uma só reunião. Por outro lado, é sabido que o Garcia pertencia ao grupo do Pinche e não ao suposto grupo do Cambedo.
 
 Pela minha parte continuo sem saber qual a verdade, mas na minha opinião, fico-me pela versão da “matança do porco”, embora seja reconhecido e provado que a guerrilha considerou um erro político a morte do Pinto de Negrões e que essa tal reunião de comandos da guerrilha teria existido, mas não no Cambedo, nem em nenhuma das casas de abrigo, pelo menos nesse dia 20 de Dezembro.
 
Voltando ao Garcia. Artur Queirós (JN) diz no seu artigo a respeito dos grupos de guerrilha na raia portuguesa que «os grupos eram coordenados pelo capitão Garcia, um homem corpulento, oficial de carreira, a quem a Guarda Civil chamava «o terror das montanhas». Era ele que estava em contacto com o comando central das guerrilhas.»
 
Suponho que este Garcia a que se refere Artur Queirós, não deve ser o mesmo Garcia que estava no Cambedo. Quanto ao posto de Capitão, pela documentação existente, alguns testemunhos e pela forma atabalhoada de “combater” que lhe era conhecida, é pouco provável que o Garcia algum dia o tivesse sido, comandante ou coordenador de guerrilhas, antes, isso sim, apenas guerrilheiro e, a verdade seja dita, quer tivesse sido capitão ou não, chefe de guerrilha ou não, coordenador ou lá o que fosse, foi como um verdadeiro guerrilheiro que morreu.
 
Morte que também não está muito clara. A documentação existente e dispersa ligada à guerrilha afirma que quando Demétrio ficou sem munições e resolveu render-se às forças militares do cerco do Cambedo, o Garcia teria dito: « Eu non bou. Quedame unha bala, e esta é para mim.» e ter-se-ia suicidado. Por outro lado, na documentação oficial da autópsia, os peritos afirmam ter havido homicídio e a morte provocada por duas balas. Por sua vez, Demétrio (que estava com Garcia aquando da sua morte) afirma em tribunal que Garcia se teria suicidado após negar-se à rendição. A imprensa da época diz não ser crível a hipótese de suicídio e afirma que foi o Demétrio quem o matou, antes da sua rendição. Por último, também se podem pôr outras hipóteses em cima da mesa, como a de um primeiro tiro suicida (com o qual Garcia não morre) e um segundo tiro de confirmação de morte dado pelo Demétrio, embora aqui haja uma pequena contradição, pois sabe-se que Demétrio se rendeu porque ficou sem munições. Outra hipótese é a de que o Garcia já estava ferido de bala quando se suicidou.
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Embora este « Eu non bou. Quedame unha bala, e esta é para mim.» fique para sempre ligada ao Garcia, temos como verdade, esta bem provada, que ele morreu no Cambedo pouco antes das 16 horas do dia 21 de Dezembro de 1946 na casa da Srª Albertina Tiago, junto ao lagar e, que depois de ser exposto ao público no cemitério de Chaves (conjuntamente com o Juan), deram-lhe sepultura no cemitério do Cambedo.


publicado por Fer.Ribeiro às 00:13
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4 comentários:
De Tiro Fijo a 16 de Dezembro de 2007 às 15:00
Excelente empreitada. Este blog está de parabéns, muito bom trabalho!

RESISTÊNCIA ANTIFASCISTA
AGORA & SEMPRE!


De carlossilva a 16 de Dezembro de 2007 às 17:15
Fernando!
Excelente trabalho.
Um abraço!


De reivamba a 1 de Janeiro de 2008 às 22:49
Já ouvi várias e diferentes versões acerca deste episódio - ou conjunto de episódios, uma verdadeira epopeia. É denso e vasto, o assunto. Território fértil em «dados», como em «casos», que poderá revelar-se um rico e poderoso manancial para as melhores exposições de natureza histórica. É moderno este retrato antigo deste naco de país. Está na ideia, na subjectividade do seu pressuposto toda a sua modernidade.

Carlos Inocenttes


De reivamba a 1 de Janeiro de 2008 às 23:15
Já ouvi várias e diferentes versões acerca deste episódio - ou conjunto de episódios, uma verdadeira epopeia. É denso e vasto, o assunto. Território fértil em «dados», como em «casos», que poderá revelar-se um rico e poderoso manancial para as melhores exposições de natureza histórica. É moderno este retrato antigo deste naco de país. Está na ideia, na subjectividade do seu pressuposto toda a sua modernidade.

Carlos Inocenttes


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