Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 6 - Demétrio, "O Pedro"

 

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DEMÉTRIO, o “Pedro”
 
Sobre o Demétrio, quase tudo quanto há a dizer está dito na Revista História, nº27 de Dezembro de 1996 no já referido documento de Paula Godinho e que passo a transcrever:
 
 
«Demétrio Garcia Alvarez nasceu em Maio de 1912 na aldeia de Chas (Oimbra), filho de Primitivo Garcia Justo (que o haveria de acompanhar durante uma parte da pena de prisão) e de Rosa Garcia Alvarez. Tal como os pais, viria a ser lavrador desafogado, sem que se lhe notassem simpatias políticas, que só despertariam após uma estadia forçada no Forte de Paplona. Fora para aí levado depois de ter agredido à pedrada um elemento da Falange que, enquanto Demétrio integrava com outros aldeões, alegadamente defensores da República, um grupo de trabalho de poda de uma vinha, iniciou um tiroteio. Os dois anos de permanência na cadeia serviram-lhe ao amadurecimento político, reforçado pelas manifestações de lealdade de um amigo russo que lhe permitiu escapar de uma condenação à morte serrando as grades da cela. O terreno espanhol tomara-se-lhe padrasto e, mercê da sua proveniência e ligação à agricultura numa povoação próxima da raia, dos laços familiares de um e outro lado da linha delimitadora e de um notável capital de contactos sociais do lado português, procura a povoação de Cambedo da Raia. Aí casara no final dos anos trinta a sua irmã Manuela com Manuel Bárcea - este último filho de pai espanhol que viera residir após o casamento no Cambedo. Com estes familiares, e a coberto das próprias autoridades locais (nomeadamente da Guarda Fiscal), ocupou-se daquilo que sabia: agricultura. Deixara a mulher em Chãs, onde se esgueirava ocasionalmente de noite; os seus três filhos já então repousavam no cemitério da aldeia, a que viria a juntar-se a esposa, tuberculosa, tempos depois da prisão de Demétrio. Perderia um irmão, contrabandista e homem de confiança do novo regime, arrastado para a morte pelas opções de Demétrio. Na fase crucial do cerco que lhes vinha sendo montado acolheu-se ao lugar onde a teia de parentes se afigurava protectora: Cambedo da Raia.
 
Mas, então, as relações familiares eram já insuficientes para fazer face ao portento da força do Estado.
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Demétrio será o mais duramente castigado dos presos envolvidos no designado «processo do Cambedo»: passa 19 anos nas masmorras da PIDE, depois de, em 12 de Dezembro de 1947, ter sido julgado pelo Tribunal Militar Territorial do Porto «tendo sido condenado na pena de dez anos de prisão maior celular, seguidos de degredo por 12, ou em alternativa em 28 anos de degredo em possessão de 1ª classe».
 
 
Em 11 de Junho de 1948 vai para o Tarrafal, sendo aí confirmada a sua permanência numa comunicação do director da colónia Penal de Cabo Verde em Janeiro de 1951.
 
Transferido posteriormente para a Cadeia Penitenciária de Lisboa, será libertado em 1965, partindo então de avião para França, onde pediu exílio e nunca mais quis pisar território espanhol. Tornou-se estivador em Bordéus. A velhice e a asma levaram-no ao internamento num sanatório, tendo morrido em Julho de 1990.»
 
Pela certa que podia encerrar por aqui o capítulo do Demétrio e ficaria tudo dito, ou quase, pois há a realçar pormenores que podem fazer a diferença no caso do Demétrio e no seu relacionamento com o Cambedo.
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É do conhecimento de todos que o Demétrio a partir de 1937 passou praticamente a viver no Cambedo, como “fuxido”, primeiro em casa do Silvano, depois em casa da Sebastiana e por último em casa da sua irmã Manuela desde que esta casou, em 1939, com Manuel Bárcia, o “Mestre”. Sempre próximo dos seus e da sua terra natal, Chãs, o Demétrio nunca foi um estranho no Cambedo, aliás fazia a sua vida normal como mais um aldeão e agricultor do Cambedo.
 
Segundo testemunho do próprio Demétrio, a sua ligação e entrada na guerrilha só se faz em inícios de 1946 onde passaria a ser conhecido como o “Pedro”. Como sabemos o Demétrio foi preso em Dezembro de 1946, ou seja, a sua passagem pela guerrilha nem sequer chega a ser de um ano, o ano de 1946. Aqui, no cruzar de toda a informação disponível sobre a guerrilha, fico confuso e há dados contraditórios, além de alguns que me parecem pouco credíveis. É, por exemplo, atribuído ao Demétrio a chefia de um grupo de guerrilha de sete guerrilheiros. Parece-me pouco provável que acabado de entrar na guerrilha tome logo a chefia de sete guerrilheiros mais experientes que ele e, que os nomes do Juan e do Garcia, só apareçam ligados ao Demétrio no dia 9 de Dezembro de 1946 no assalto ao “coche de línea” Verin- Ourense, quando para já, sabemos que o Garcia até pertencia ao grupo do Langulho ou Pinche.
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Contradições e confusões à parte, tudo indica para que Demétrio tivesse vestido a camisola da guerrilha, com convicção e que a honrou durante o único ano a que a ela esteve ligado.
 
Os que o conheceram reconhecem nele um homem não muito grande em estatura (1,66m) mas um grande homem, como homem.
 
Artur Queirós refere no artigo do JN de 6.Dez.87 que Demétrio no momento da sua rendição «..saiu do lagar onde estava entrincheirado com as mãos no ar e foi barbaramente agredido. Em Chaves, na PIDE foi torturado. Depois, no Porto, durante meses, esteve sujeito às mais selváticas torturas. Queriam que ele assinasse os autos, mas ele não assinou.»
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Almor Viegas, um político que esteve preso na PIDE com o Demétrio, testemunha o seguinte : « tenho dele a imagem de um homem forte, baixo, com ar digno, saindo da cela entre os guardas, sem dizer uma palavra.”
 
Também é esta a imagem, de homem sério e ar digno, que as pessoas que o conheceram no Cambedo guardam dele quando me dizem: «o Demétrio era um senhor!», já o mesmo não dizem do Garcia.
 
Demétrio, ainda antes da sentença de condenação pelo Tribunal Militar do Porto disse ante os juízes em tom alto e bom som « Sou um guerrilheiro, não sou criminoso. Tudo o que fiz foi pela liberdade do meu povo e pela Espanha livre»
 
A luta pela liberdade valeram-lhe dez anos de “fuxido”, um de guerrilheiro e as torturas da PIDE, 19 anos de cadeia, o Tarrafal e, o nunca mais pisar território da tal Espanha livre pela qual lutou.
 
Curioso (que em nada espanta) em toda esta história dos guerrilheiros do Cambedo é que na época, para a opinião pública e imprensa, passou a imagem de que eles eram atracadores, bandoleiros e bandidos, no entanto, todo o processo oficial relacionado com eles, foi puramente político.
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Disseram-me no Cambedo que a família do Demétrio (irmã e sobrinhos) acreditam que depois de posto em liberdade (1965) e antes de ter ido para França, ainda fez uma breve passagem pelo Cambedo, disfarçado de mendigo, para os ver. Embora pouco provável que o Demétrio tivesse regressado ao Cambedo, também eu acredito na fé da sua família.
 
E por hoje é tudo, e dos “Três do Cambedo” só falta mesmo abordar o Juan Salgado, o Facundo, o tal que quase virou a mito com estórias de lenda e me levou à descoberta da Batalha do Cambedo.
 
Até amanhã, com o Juan!


publicado por Fer.Ribeiro às 03:00
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