Domingo, 23 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 12 - A imprensa da época.

 

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E para terminar, vamos fazer uma abordagem pelo que foi dito oficialmente e na imprensa escrita da época sobre os acontecimentos do Cambedo, após os mesmos, claro.
 
Lembre-se que estávamos em 1946 em que a censura estava sempre presente em qualquer escrito mas sobretudo realce-se a imagem feita e oferecida a todos dos guerrilheiros antifranquistas, que em Portugal de então, nunca foram considerados como tal, mas sempre como bandoleiros, bandidos e atracadores, entre outros.
 
O que rezaram os relatórios oficiais e imprensa
 
Já sabemos que em 1946 estávamos em pleno regime Salazarista. Sem querer aprofundar aquilo que foi dito pelos relatórios oficiais da PIDE e outros tais das forças intervenientes no ataque ao Cambedo, em que se relatou o politicamente correcto para o regime, além, (claro) da marcação de pontos e promoção pessoal dos relatores. Em todos eles foi ignorado, como convinha, a existência da povoação inocente do Cambedo e o seu povo também inocente, incluindo crianças, que foram obrigadas a viver debaixo do fogo cruzado das armas durante dois dias (uma delas ferida com um tiro). Dos fracos e inocentes não reza a história, e se rezou, não foi para inocentar, mas antes para culpabilizar, prender e torturar mais de um terço da sua população.
 
Da actuação dos funcionários do regime intervenientes na batalha do Cambedo (GF, GNR, PSP e Exército), não se esperava outra coisa. Cumpriram a sua missão, ou seja, cumpriram ordens pois a tal foram obrigados e, em questões políticas, eram mantidos na ignorância como convinha. Já o mesmo não se poderá dizer das chefias destas forças e da PIDE, que esses sabiam perfeitamente que os tais atracadores eram guerrilheiros anti-franquistas.
 
E a imprensa da época, que já então fazia a opinião pública, como tratou os acontecimentos!?
 
A imagem de guerrilheiro antifranquista (alguns ex-militares do exército republicano e outros tantos, simples fugidos ou refugiados que acabaram por aderir à guerrilha, constituíam a guerrilha antifranquista que ainda tinha esperança em retomar o poder legítimo e republicano saído das urnas e deposto pela força das armas franquistas), como ia dizendo, essa imagem de guerrilheiro nunca passou pela imprensa portuguesa e, além de crimes que lhe imputaram e que nunca cometeram, bem como outras tantas mentiras inventadas a seu respeito para denegrir a sua imagem, em toda a imprensa foram tratados como puros “bandos de malfeitores”, “quadrilha”, “criminosos” e “Bandoleiros” como os apelidou por exemplo o «Diário do Minho», ou “bandoleiros espanhóis” como sempre os tratou o «Jornal de Notícias», ou ainda “bando de civis armados”, “malfeitores de uma quadrilha” ou “meliantes” como foram tratados pelo « O Comércio do Porto», ou ainda por “criminosos” e “bando armado” como foram tratados pelo «O Primeiro de Janeiro».
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Por sua vez no jornal de maior circulação em Portugal, «O Século», de dia 22 a 27 de Dezembro de 1946, dedicou aos acontecimentos sempre notícias de 1ª Página, letras gordas, e se a 22 de Dezembro o título era: « Dois dias lutaram encarniçadamente forças da GNR e do Exército contra o famoso grupo de bandoleiros que actuava em Trás-os-Montes e acabou por se render – o chefe do bando foi abatido». A 23 de Dezembro, também com notícia de 1ª página e continuação/desenvolvimento em pagina interior, o título passou a: «OS BANDIDOS capturados depois de luta feroz travada em Cambedo seguiram para o porto». No rol da notícia estava incluído quase um terço da população do Cambedo, que de “bandidos”, apenas estava o guerrilheiro Demétrio. Mas continua, ao terceiro dia (dia 24 de Dezembro), novamente notícia de 1ª página com o título«Um dos bandoleiros da quadrilha de Cambedo esteve ontem naquela aldeia e parece que ainda há outros bandidos em liberdade» na continuação da página interior começa com o título «A quadrilha de Cambedo». Ao quarto dia, dia 25 de Dezembro, apenas uma pequena notícia, confusa e irreal, pois fala-se num novo bando, o Bando do Barroso, do qual dois elementos teriam sido presos no dia anterior, no Cambedo. Finalmente no dia 27 de Dezembro, também notícia de 1ª página: « CRE-SE QUE O CHEFE dos bandidos de Cambedo não foi preso e receia-se que volte a organizar o seu bando».
 
Mas bem pior que os títulos de primeira página, era o que se vertia nas linhas do artigo.
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O primeiro começa assim«Chaves, 21 – Há tempo que se vinha registando-se longa série de crimes de morte e assaltos à mão armada, praticados por um perigoso grupo de bandoleiros, nas regiões de Montalegre e Chaves, em Trás-os-Montes e na província de Verin, em Espanha. Temidos por toda a gente os bandidos não hesitavam em abater quem quer que se opusesse aos seus desígnios.(…)»
 
É sabido, que à excepção do caso do Pinto de Negrões ( que logo reconheceram como erro crasso) os guerrilheiros apenas actuavam em Espanha, servindo-se das aldeias da raia portuguesa apenas como refúgio.
 
Ainda a respeito do deturpar da realidade, como mero exemplo, é sabido pelos relatórios da PIDE e das forças intervenientes, que tinham ordens para não deixar sair a população de suas casas nem da aldeia. A notícia no “O Século” diz assim: « Assim que começou a luta. Os sitiantes viam a sua acção prejudicada pelo facto de os criminosos não permitirem que os habitantes saíssem da aldeia, retendo-os a seu lado. Sabia-se que o bando era constituído por cerca de vinte homens (…)»
 
Só em valentia, talvez, os três guerrilheiros refugiados no Cambedo valessem por vinte homens. A mesma (valentia) que era atribuída pelo articulista às forças sitiantes «(…)Os soldados da GNR e do Exército, que se portaram com excepcional valentia (…)»
 
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Posso nada perceber de valentias, mas percebo um pouco de matemática. Então vejamos: mais de mil militares da GNR, Guarda-fiscal, PSP, PIDE, Exército (com morteiros) e Guarda Civil (Espanhola) contra 3 guerrilheiros. O resultado, foram dois dias de combate, três casas destruídas pelos morteiros e alguns incêndios. De parte dos sitiantes houve dois mortos e vários feridos, de parte dos guerrilheiros, um morto, um suicídio e um preso, ficaram sem munições. Que cada um tire daqui as conclusões e valentias que quiser.
 
Mas não termina aqui e, a notícia continua: « (…) também foram presos, por fazerem parte do bando ou por encobrirem, dezassete homens e quatro mulheres – a amante, a mãe e duas irmãs do Juan Salgado Rivera (…)» - aqui a única verdade é a de que foram realmente presos os dezassete homens (até mais) e as 4 mulheres, mas todos eles eram gente do Cambedo e não faziam parte do tal  “bando”, nem sequer eram familiares de Juan, como afirma a notícia.
 
Sobre o Juan, que até ser “fuxido” e ingressar na gerrilha antifranquista, sempre tinha sido contrabandista, agricultor e tocador de cornetim “O Século” na edição de 23 de Dezembro promove-o a Alcaide (equivalente ao nosso Presidente de Câmara): «(…) O Rivera foi alcaide de Léon, Espanha, quando da guerra civil, e tinha no seu activo mais de duzentos assassinos, dirigindo um bando comunista (…)» por sua vez, Manuela Garcia, na mesma edição de “ O Século” é apelidada de “espia do bando”. Mais à frente, a respeito das forças militares sitiantes diz o seguinte: «(…) Segundo afirmou o sr. Capitão Medeiros, um dos organizadores do ataque a Cambedo, nenhum dos habitantes da localidade ficou ferido, tão bem planeada foi a operação levada a cabo (…)» - Já Silvina Feijó, felizmente ainda viva, não diz o mesmo, aliás ainda tem a cicatriz e sofre das mazelas do tiro que então levou numa das pernas quando tinha apenas 12 anos de idade, para não falar das três casas que foram destruídas com os morteiros, dos palheiros incendiados. Mas a melhor de todas (na mesma edição) é quando afirma: «(…) entre outras proezas de vulto, os bandoleiros haviam planeado um assalto à cidade de chaves.(…)». Já sabemos que os três, ou melhor, dois guerrilheiros (pois o Juan foi morto nas primeiras horas), resistiram ao cerco de mais de mil militares durante dois dias e, só se renderam quando ficaram sem munições,  agora esta de (os três) planearem um ataque à cidade de Chaves, éra mesmo uma proeza de vulto.
 
No dia seguinte, “O Século” continua com a novela e chega a afirmar: «(…) Soubemos que o companheiro do Juan Salgado Rivera que tentara a fuga com aquele e que consegui escapar à perseguição das autoridades, esteve ontem em Cambedo, tranquilamente(…)» Sim, sim! Além de o Juan ter fugido sozinho, pois nunca se confirmou a presença de um quarto guerrilheiro no Cambedo e o presumível quarto guerrilheiro tratava-se do filho de Engrácia Gonçalves, que também foi preso, e que apenas saiu à rua quando o Juan iniciou a fuga a partir de sua casa, onde tinha pernoitado. Mas ainda há mais «(…) parece averiguado que os mais temíveis bandidos eram o Juan Salgado Rivera, que morreu durante a luta, e o Demétrio Garcia Prieto, que está preso. Qual quer deles era pessoa que não vacilava em abater fosse quem fosse, para levar a cabo os seus desígnios.(…)» Quanto ao jornal «O Século», ficamos por aqui, embora a novela ainda tivesse continuação no dia 27 de Dezembro.
 
E os jornais locais o que disseram!?
 
 
Um deles, o ERA NOVA, mais próximo do regime Salazarista o tal cujo director era o Luís Borges Júnior,  não sabemos, pois após buscas do mesmo na Biblioteca Municipal de Chaves, não conseguimos encontrar um único exemplar desse ano, ou desses anos. Quanto ao «Comércio de Chaves», que fazia questão de na primeira página, no cabeçalho, meter a nota : Visado pela Comissão de Censura, reproduzimos na integra a noticia, também de 1ª página, com o pouco ou quase nade que disse sobre o assunto:
 
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Em nenhuma das notícias a que tive acesso, os guerrilheiros do “Cambedo” foram tratados como tal. Faço minhas as palavras de Paula Godinho ao respeito, na Revista História, nº27 de Dez, 1996: «…Esta passagem pela forma como a imprensa relatou os acontecimentos no Cambedo, se não pode deixar de nos lembrar a apertada malha da censura, não deixa todavia de nos interrogar sobre a carga que o regime pretendeu retirar aos acontecimentos. (…)» quando «(…) é indubitável o alinhamento político dos elementos deste grupo, herdeiro do exército republicano (…)».
 
 
 
 
Outra coisa não se poderia esperar do que diria a imprensa da época.
 
Mas mesmo após o 25 de Abril e alguma luz feita sobre o assunto, ainda há escrita da imprensa, que hoje até se diz livre e informada, que às vezes gosta de lançar confusão sobre o assunto. José Amorim num editorial que denominou "A guerrilha da fome", interpreta os factos ocorridos em Cambedo de uma forma que merece ser destacada,
 
"O que dizem os factos é que a Espanha estivera em guerra civil de que Portugal, graças a Deus, se viu livre, por mérito de um governante que se chamou Salazar (...) Como consequência dessa guerra surgiram os homens armados que para sobreviverem não olhava a meios. Recorde-se o assalto à camioneta de passageiros Braga - Chaves e a morte de soldados da GNR abatidos na sua missão (...)Os Transmontanos esperam um relato isento desse episódio bélico que pôs em alvoroço as gentes da nossa região"
(Amorim, 1987).
 
Daqui se poderão tirar algumas conclusões e compreender o porque de as gentes do Cambedo abordam sempre o assunto com desconfiança e medo.
 
«A verdade verdadeira nunca foi contada sobre o Cambedo» foi-me dito por um dos filhos do Cambedo e que desde o inicio deste trabalho me tem de certa forma perturbado. Um facto é que há uma vontade expressa por parte de toda a gente que tem alguns conhecimentos sobre os acontecimentos em não falar sobre o assunto. Quer-se um assunto esquecido, tanto que até parece haver interesses nesse esquecimento.
 
Os factos históricos da época revelam bem quem eram os espanhóis do Cambedo. Da minha parte não tenho qualquer dúvida que eram “fuxidos” e guerrilheiros que lutavam por uma Espanha livre e democrática, a mesma que tinha saído das urnas e que a direita e mais tarde Franco nunca aceitaram. Esta realidade sempre foi escondida e deturpada aos olhos do povo português, um povo que na época também estava a pagar os males de duas guerras que não eram suas. Reduzir os guerrilheiros que lutavam por Espanha contra Franco a bandidos e atracadores era a maneira mais fácil de retirar toda a carga política sobre a questão além de vir a justificar acontecimentos como os que ocorreram no Cambedo. A mesma carga política já não é retirada sobre o povo do Cambedo e sobre os envolvidos, principalmente por parte da PIDE quando as gentes do Cambedo passam a ser tratados comos os “vermelhos do Cambedo” e todos os seus passos a ser seguidos.
 
E a amnésia, com a mesma raiz semântica que amnistia, faz equivaler o esquecimento ao perdão (Aguilar, 1996:47). O sublinhado é meu.
 
É verdade e, eu sou testemunha disso. As gentes do Cambedo preferem a amnésia e o silêncio a estarem nas bocas do mundo, principalmente quando os acontecimentos do Cambedo foram e às vezes, ainda são, intencionalmente distorcidos, mal interpretados e servem de pretexto para exorbitar velhas memórias, que essas sim, mereciam ser esquecidas, ou melhor, ignoradas.
 
E termino por aqui aquela que foi a “grande reportagem” deste blog, em homenagem e dedicada ao povo do Cambedo e, termino como os amigos galegos o homenagearam:
 
« EM LEMBRANÇA DO VOSSO SOFRIMENTO»
 
A partir de amanhã o blog voltará à normalidade do costume. Contudo fica em aberto um novo blog que dá pelo nome de “Cambedo Maquis”, onde continuarei a registar o evoluir das descobertas e da escrita sobre o Cambedo e os Guerrilheiros Antifranquistas da raia portuguesa. Um blog aberto à participação de todos quantos nele queiram participar e colaborar.
 
E para terminar esta aventura sobre o Cambedo só resta mesmo agradecer a todos quantos de uma ou outra forma, directa ou indirectamente colaboraram e tornaram possível este “trabalho” sobre a tentativa de contribuir para a despenalização e as verdades do povo do Cambedo, dos guerrilheiros antifranquistas que abrigaram e da vergonhosa batalha de 20 e 21 de Dezembro de 1946.
 
Os meus agradecimentos por ordem alfabética para:
 
Almor Lopes Doutel
António Augusto Joel
Arlindo Espírito Santo
Artur Queirós (bibliografia)
Bento da Cruz (bibliografia)
Carlos Lopes
Carlos Silva
Florinda Pinheiro
Irmã Maria do Carmo
João Madureira
José Fernandes Alves (bibliografia)
José Garcia Salgado
Paula Godinho (bibliografia)
Paulo Alexandre Lopes
Presidente da Junta de freguesia de Sanfins da Castanheira
Risco da Vinha (bibliografia)
Sebastião Salgado
Silvina Feijó
 
 
E a partir de hoje este blog continuará, não com publicações diárias, mas com publicações ocasionais com tudo que houver sobre o Cambedo. 


publicado por Fer.Ribeiro às 02:10
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Sábado, 22 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 11 - Sequelas e Mazelas
SEQUELAS E MAZELAS DEIXADAS AO POVO DO CAMBEDO
 
Claro que a partir de dia 21 de Dezembro de 1946 o Cambedo não poderia continuar igual. Um campo de batalha deixa sempre as sua mazelas e no Cambedo deixou-as, quer fisicamente com a destruição de algumas casas e bens, que ainda hoje estão em ruínas, quer nas pessoas, principalmente nestas, deixou nelas depositadas mazelas, muita injustiça e até perseguição continuada ao longo dos anos.
 
 
No rescaldo do dia 20 e 21 da Batalha do Cambedo, foram presos mais de sessenta pessoas, sendo 63 indiciados no processo da PIDE nº 917/46, segundo a PIDE, por cumplicidade com o bando de malfeitores, por acolhe-los em suas residências e, ainda acusados de apoio à rebelião armada. Destes sessenta e tal, mais de trinta, nos primeiros dias e meses foram postos em liberdade condicional ou definitiva e os restantes julgados no Tribunal Militar Territorial do Porto durante o mês de Dezembro de 1947. O julgamento contou com quatro audiências e a sentença foi lida no dia 12 de Dezembro de 1947.
 
Não bastou o terror lançado sobre o Cambedo durante os dias 20 e 21 de Dezembro de 1946, como ainda muita da sua gente foi presa e torturada pela PIDE. Mesmo que grande parte tivesse vindo a ser posta em liberdade, passaram pela humilhação das prisões, como de criminosos se tratasse.
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Se para o Demétrio era fácil adivinhar-se uma pesada condenação, não só pelas acusações de pertencer a um bando de malfeitores, mas também pela resistência às autoridades e a morte de dois Guardas Republicanos, adivinhava-se também condenação para aqueles que lhes deram abrigo.
 
Se houve condenações que justas ou injustas eram esperadas, já o mesmo não se poderá dizer do caso de Silvino Espírito Santo, de 51 anos, 2º cabo da Guarda-Fiscal reformado, natural de Pitões e residente no Cambedo em frente à casa onde estava abrigado Demétrio e Garcia. Talvez o únicos “crimes” de Silvino E.Santo fosse estar casado com Clementina Fernandes que era  prima do Mestre - Manuel Bárcia, ou Ser Guarda Fiscal Reformado, ou ser vizinho do Mestre, ou então conhecer o Juan e o Demétrio de há longos anos, como aliás toda a população do Cambedo conhecia. À sua prisão e posteriores acontecimentos não é estranha a mão do Capitão Luís Borges, o tal que foi presidente da Câmara, administrador do concelho de Chaves, inspector delegado da Polícia Internacional (PIDE), instrutor da Legião Portuguesa e director do tal jornal Era Nova.
 
A respeito dos Guardas fiscais envolvidos no processo, Paula Godinho refere na Revista História:
 
“Vários aldeões são acusados de acolherem o «bando de malfeitores», ou de com eles serem coniventes. Entre estes, salientam-se os agentes da Guarda Fiscal, integrando quatro deles este processo. A lógica subjacente à sua actuação , que respondeu às obrigações inerentes a alianças dentro da comunidade e com povoações dos arredores, conduzia-os a uma cumplicidade passiva, por não denunciarem a presença de refugiados. Teria de ser punida exemplarmente. Assim é com elementos do posto de Cambedo da Raia, como Silvino Espírito Santo, cabo da Guarda Fiscal nascido em Outubro de 1892, na povoação raiana barrosã de Pitões das Júnias, onde se familiarizara desde cedo com a convivência dos povos de um e outro lado da linha de demarcação. Partira para Lisboa depois da morte precoce do pai, alistara-se na GF, e como elemento desta força fora colocado em Cambedo da Raia, onde casou. Seria talvez o único habitante da aldeia a ler «O Primeiro de Janeiro» e também a «Gazeta do Sul», que assinava. Tornou-se alvo do despeito do capitão Luís Borges, principalmente pela indiferença adoptada relativamente à circulação de guerrilheiros galegos. Preso quando já se reformara como 2º Cabo, «por suspeita de fazer parte de uma associação de malfeitores» (tal como a restante gente do Cambedo presa), ficaria detido por 11 meses. Foi despromovido no Tribunal Militar e após 36 anos de serviço sem falhas de comportamento foi-lhe suspensa a pensão. Aquando da sua detenção, foi acompanhado pela esposa, Clementina Tiago, pela irmã desta, Albertina Tiago, pelo cunhado Júlio Lopes (também da Guarda Fiscal) e pelo filho mais velho, Domingos Espírito Santo, que se encontrava na tropa, e esteve um ano sem julgamento em presídio militar.”
 
Só da família de Silvino Espírito Santo foram 5 pessoas presas. Sem dúvida alguma que foi uma das famílias mais injustiçadas no caso do Cambedo da Raia, prendendo os seus e deixando Silvino Espírito Santo, mulher e 5 filhos sem a pensão de reforma que se adivinha, era o sustento da casa.
 
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Vejamos quem foram alguns desses detidos e quais as penas que apanharam:
 
1 – Demétrio, condenado a 28 anos de degredo (já atrás no capítulo a ele dedicado deixei um pouco da sua vida);
 
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2 – Os espanhóis componentes do bando e julgados à revelia, 4 anos de degredo;
 
3 - Silvino João Domingues, 4 anos de degredo;
 
4 – José Pereira, 2 anos e meio de degredo;
 
5 – Manuela Garcia Álvares, irmã de Demétrio e mulher do Manuel Bárcia, natural de Chãs, Verin, mas a residir no Cambedo desde que se casara. Absolvida. Saliente-se que os que foram absolvidos já tinham passado pelo menos 13 meses na prisão.
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6 – José do Nascimento Barroso, 20 anos, solteiro, filho da viúva Engrácia. 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
7 – Guilherme Pereira, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
8 – António Lavouras, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional. Esta família, que não era do Cambedo, mas sim de Mosteiró de Cima (Valpaços) e residente em Nantes, também viu os seus todos presos, como a mulher, Saudade Lavouras e a filha, além de alguns vizinhos.
 
9 – Engrácia Gonçalves, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
10 – Isilda dos Anjos, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
11 – Adelaide Teixeira, 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
 
 
12 – Assunção Ribeiro Carvalhal, 31 anos, Natural de Chãs, Verin, casado no Cambedo, absolvido;
 
13 – Albertina Tiago, 46 anos, solteira, natural e residente no Cambedo, absolvida;
 
14 – Escolástica Fernandes, de 55 anos, solteira, do Cambedo, absolvida;
 
15 – Adolfo Gonçalves, 45 anos, casado, do Cambedo, absolvido;
 
16 – Silvino Espírito Santo, 51 anos, 2º cabo da Guarda-Fiscal, natural de Pitões e residente no Cambedo, já foi atrás referido que além da prisão preventiva, foi despromovido e retiraram-lhe a pensão de reforma.
 
17 – João Manuel Afonso Pereira, 31 anos, Guarda-Fiscal, oriundo de Vilar de Veiga e casado em Soutelinho embora residente no Cambedo onde prestava serviço, embora absolvido no Tribunal Militar do Porto. Foi condenado a 40 dias de prisão pelo Comando da Guarda Fiscal e transferido de posto.
 
18 – Primitivo Garcia Justo, cinquenta e nove anos, casado, lavrador, natural e residente em Chãs, pai de Demétrio. Embora haja documentação que afirma que teria acompanhado o seu filho Demétrio ao longo de alguns anos de prisão, não consegui apurar qual foi a sua condenação.
 
19 – Celsa Garcia Alvarez, 18 anos, solteira, irmã de Manuela e cunhada do Mestre (Barcea). Irmã de Demétrio. Absolvida
 
20 – Casimiro Gonçalves, filho de Engrácia, 16 anos, solteiro. Absolvido;
 
21 – Manuel Bárcia, o Mestre, 34 anos, natural e residente no Cambedo (casa que abrigava Demétrio e Garcia na noite dos acontecimentos). Esteve mais de três anos e na cadeia. Condenado a 2 anos de degredo, substituídos por 18 meses de prisão correccional;
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22 – Joaquim Gomes, também conhecido por Ginja, Joaquim da Serra e Russo, 46 anos, taberneiro, residente no lugar do Funda da Serra em Sanjurge. Absolvido, mas também esteve preso durante mais de um ano a aguardar julgamento. Não foi provado qualquer envolvimento com os guerrilheiros, apenas que serviu por duas vezes um grupo de guerrilheiros a pedido de Manuel Bárcia (seu conhecido), os quais pagaram as refeições e nunca mais os viu.
 
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23 – Maria Alice Pires, 47 anos, mulher de Manuel Valença, do Cambedo. Acusada de ter escondido uma pistola do José Barroso.
 
24 – Joaquim Amaro, 32 anos, Vilarinho das Paranheiras. Acusado de esconder Bárcia.
 
25 – Aurora Barros, de 60 anos, de Nantes. Presa por, na madrugada do dia 20 de Dezembro, ter avisado o casal Lavouras da presença da Guarda-Republicana.
 
26 – Alda Gonçalves Lavouras, filha de António Lavouras e Saudade Lavouras, solteira de dezanove anos. Embora absolvidas, a mãe passou 13 meses na cadeia e a filha perto de 3 meses.
 
27 – Foram ainda absolvidos, depois de 13 meses de cadeia na PIDE do Porto : Celestino Miranda; João Exposto; Saudade Lavouras; David dos Santos Pires; Adelino José; João do Nascimento; José Rente; Vitorino António de Oliveira, o Nacho; Salvador dos Anjos, José Augusto Gonçalves; Armindo Augusto, Florinda Barbosa Pinheiro
 
 
28 – Os espanhóis Eládio Peres Prada, António Perez e Primo Perez Colmero, que acidentalmente estavam no Cambedo com mais dois primos menores de doze anos, Manuel Pardo Perez e Irene Perez Salgado e que naquele dia tinham vindo de compras a Portugal. Que embora detidos com os restantes e conduzidos para o Porto, foram soltos no dia seguinte e conduzidos à fronteira como simples indocumentados. O mesmo aconteceu com os portugueses José dos Santos Lobo, Joaquim Teixeira, Ventura Ferreira Moutinho, Agostinho Gonçalves, António dos Santos Chaves, João SecundinoPires, José Vieira e Boaventura Gonçalves que a PIDE propõe que sejam postos em liberdade em virtude da sua detenção ser apenas uma medida preventiva.
 
29 – Há ainda a considerar o caso do Guarda-Fiscal Octávio Augusto, a prestar serviço no posto do Cambedo na altura dos acontecimento e que após os mesmos foi transferido para o Geres onde se viria a suicidar. Octávio Augusto estava casado com Adelaide, irmã do já mencionado Mestre (Bárcia).
 
 
Quanto à origem das pessoas detidas após o cerco do Cambedo temos por ordem decrescente:
 
- Cambedo – 18 pessoas
- Concelho de Vinhais – 12 pessoas
- Cimo de Vila da Castanheira – 7 pessoas
- Torre de Ervededo – 6 pessoas
- Concelho de Montalegre – 6 pessoas
- Nantes – 3 pessoas
- Concelho de Boticas – 2 pessoas
- Concelho de Valpaços – 2 pessoas
- Vilarelho – 1 pessoa
- Vilela Seca – 1 pessoa
- Vila Meã – 1 pessoa
- Couto de Ervededo – 1 pessoa
- Bustelo – 1 pessoa
- Chaves – 1 pessoa
- Famalicão – 1 pessoa
- Maia – 1 pessoa
 
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Claro que a maioria desta gente, mesmo que não condenada em tribunal, passou pelo menos 1 ano na cadeia a aguardar julgamento e sabe-se lá o que mais não teria passado, conhecida que era a hospitalidade da PIDE que liderou todo este processo.
 
Em conversa com Florinda Pinheiro (a Espanhola ou Galega como é conhecida) que abrigou guerrilheiros em sua casa em Mosteiro da Castanheira, perguntava-lhe há dias se, enquanto esteve presa no Porto (13 meses) alguma vez foi torturada ou mal tratada e, a resposta foi clara: “- A mi, nom, mas ós do Cambedo e Demétrio, sí. Essos sofreram muito, coitadinhos!». Para Florinda Pinheiro, o só ter estado presa durante 13 meses, não foi ser maltratada. Claro que a privação da liberdade já em si é ser maltratada, mas é desculpada por Florinda Pinheiro, pois poderia ter sido bem pior, e hoje, já pouco recorda dos acontecimentos, mas recorda constantemente que esteve 13 meses presa na PIDE do Porto e os maus tratos às gentes do Cambedo e tem saudades de uma amiga que fez na prisão e à qual nunca mais viu, a Saudade Lavouras e das quais deixo aqui uma foto actual de ambas, e já que não se encontram fisicamente, deixo-as aqui juntas em imagem.
 
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Mas, também concordo, que a cadeia até talvez tivesse sido o menos, o pior penso mesmo que foi após todos os acontecimentos, a cadeia e o julgamento. Pior foram as marcas que todos os acontecimentos do Cambedo deixaram a todos os que tiveram de passar pela PIDE e pelas prisões. Marcas e feridas que ficam para sempre e que nem o tempo, muito tempo, ajudam a esquecer e que as gentes do Cambedo preferem remeter para o silêncio ao avivar de velhas feridas por sarar, porque sabem que a verdade, a verdadeira, nunca foi nem será contada e que ainda há hoje quem a deturpe. Verdades que passam pelo castigo de um povo inocente e pela certa, por algum colaboracionismo com sabor a traição (de que eles nunca falam) e estórias que nunca serão reveladas nem convém revelar, mas antes ficar no silêncio das famílias para morrerem com o passar dos anos, pelo menos enquanto ainda houver sobreviventes aos acontecimentos do Cambedo, porque depois, já não haverá ninguém para o contar.
 
Bento da Cruz “lamentava-se” no seu livro, pelo recebimento que teve em Nantes em 2001 quando foi visitar Saudade Lavouras. Diz ele que Saudade Lavouras o recebeu com uma lucidez de espírito e memória de fazer inveja mas, que quando lhe pediu para falar dos espanhóis lhe respondeu: «não me lembro, nem quero saber».
 
Paula Godinho, por sua vez, no seu trabalho sobre o Cambedo, publicado em Dezembro de 1996 no livro «O Cambedo da Raia – 1946» Afirma e transcreve num capítulo que intitula “Memórias, silêncios, amnésias” o sentimento das gentes que passaram pelos acontecimentos do Cambedo, e que acho importante deixar aqui:
 
Memórias, silêncios e amnésias
 
Num retomo a Cambedo da Raia, Vilarelho e Rabal, no Verão de 2001, surpreendi um discurso defensivo por parte de antigos entrevistados. As aldeias haviam mudado, o envelhecimento era maior, menos jovens aí permaneciam. Desde 1996 havia surgido um novo elemento de perturbação na relação da aldeia com o passado. Por quotização pública, um grupo de intelectuais de Ourense erigira uma placa em Cambedo da Raia "Ao pobo do Cambedo, en memoria do voso sofrimento, 23.12.1946-23.13.1996".
Além dos textos que publicara, e daqueles em que vários jornalistas e escritores haviam abordado os acontecimentos de 1946, um realizador português fizera aí um filme, um documentarista galego - também, a televisão galega viera filmar e entrevistar. Numa série sobre o século XX em Portugal a televisão estatal portuguesa dera igualmente relevo aos bombardeamentos e à repressão de 1946.
 
Atendendo ao material que acumulara e nomeadamente aquele que denota o relevo que a polícia política portuguesa deu aos factos, o retrato do grupo em análise inseria-o numa luta política. A estranheza detectada vinha de que os antigos entrevistados pareciam intimidados. Muitos já haviam morrido, uma senhora estava senil no lar de
Vilarelho, em conversas grupais, alguns dos entrevistados enunciavam um discurso em que esperavam não o meu aval - numa retroacção do discurso erudito - mas o meu apoio:
 
Continuando com Paula Godinho, há um relato que lhe foi feito, que para mim resume o “ser do guerrilheiro” nas nossas terras da raia:
 
"Eles eram tão maus como dizem por aí, e tão desordeiros, e tão atracadores, que estavam numa caseta que é minha, e eu tinha 18 anos, era nova, e hoje não, mas na altura diziam que eu que era bonita. Eu ia para lá trabalhar, ia para o gado, íamos regar, e eles vinham por donde a mim. Nunca me deram uma palavra que me ofendessem. Nunca me fizeram mal nenhum. Porque é que hei-de falar mal deles? Eles eram filhos de pessoas como nós, eram filhos de gente que eu conhecia, como é que eles me haviam de fazer mal? Não podiam.(...) Se eles fossem marotos, eu andava ali sozinha, em Calmar, que é um lugar, se fosse agora, com essa mocidade que por ai há, o que não me fariam? E eles nunca me ofenderam. Nunca na vida, nunca! O que eles me diziam às vezes era «Tu vens para cá amanhã? Trazes-nos tabaco?». E eu levava-lhes, e pagavam-me.(...) "O Juan, por exemplo, o Juan, nós íamos de noite e às vezes apareciam-me lá na Carrasca, quando se vai para o Morico, lá na fronteira, e dizíamos assim. «Vamos às batatas, ou vamos...» Íamos á nossa vida, e ele acompanhava-nos, chegávamos lá às Casas dos Montes, e, ficava fora do povo, ali, que ele era de lá. Eu não tenho a mínima queixa para o Juan. Conhecia-lhe a mãe, conhecia-lhe o pai, conhecia-lhe o irmão, ainda agora estive lá com a Lucinda. Não são boas pessoas? O que é que tinha a Ramona, que era irmã dele, que é que tinha? Eles foram aquela coisa." (Gloria Valença, Cambedo, 2001 ).
 
E estamos quase chegados ao fim dos acontecimentos de 1946 e condenações de 1947, curiosamente ambos em Dezembro e pouco tempo antes do Natal.
 
Amanhã, o último dia dedicado ao Cambedo passará por aqui o que foi dito em alguma imprensa da época.
 
Até amanhã!.


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Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 10 - Segundo e último dia de Batalha

 

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Cambedo, dia 21 de Dezembro de 1946.
 
Vamos então ao segundo e último dia da Batalha do Cambedo.
 
(continuamos com as palavras de Bento da Cruz)
 
A aurora encontra o Cambedo transformado em campo de batalha: quartel-general, elementos de ligação entre os vários sectores, tendas de campanha, trem de abastecimentos, apoios logísticos, posto de primeiros-socorros.
 
Aperta-se o cerco à antiga morada da família Bárcia, agora subdividida em três facções autónomas: a do Mestre, a da sua irmã Adelaide, casada com um guarda-fiscal de nome Octávio e a da sua prima Albertina: todas elas contíguas e comunicantes entre si pelos respectivos quinteiros.
 
O pide Vitorino Aires, um agente da PSP e um guarda-republicano conseguem entrar nos baixos da casa da Albertina. Mas ao tentarem subir ao primeiro piso, ouvem zunir as balas rente às orelhas e põem o corpinho a salvo.
 
Então o comandante manda evacuar todas as casas em volta do quarteirão dos Bárcia, que vai ser bombardeado.
 
Os soldados de Caçadores 10 instalam-se num morro rochoso sobranceiro à povoação, a uns cento e cinquenta metros para nascente, e despejam uns trinta morteiros sobre o alvo.
 
 
A folhas tantas, aparece um homem de pistola-metralhadora em punho em cima dum telhado. Os artilheiros apontam-lhe os canhões. O homem desaparece. Os morteiros calam-se. O silêncio no quarteirão é tão profundo e prolongado que todos se convencem de que os bandoleiros estão todos mortos.
 
Aperta-se de novo o cerco. O pide Vitorino Aires e três polícias adiantam-se para o reconhecimento. São recebidos a tiro e recuam. Felizmente para eles, sem mazela de maior. Apenas um pequeno arranhão na face do pide, causado por uma pequena lasca de pedra que saltou sob o impacte de uma bala. À vista disto, o comandante manda alargar de novo o cerco. E os morteiros recomeçam.
 
A dado momento, grande alarido do outro lado da rua. O comandante manda fazer sinal aos soldados para suspenderem o bombardeamento e acorrem todos a ver o que era. Um rebo, que um morteiro fizera saltar de um muro, atingira um agente da PSP no peito.
 
Correm com ele em charola para o posto médico.
 
Reata-se o bombardeamento.
 
Ao cabo de uns setenta morteiros despejados sobre o quarteirão, dele não restam mais que ruínas fumegantes.
 
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Um dos morteiros disparados no bombardeamento que não rebentou e foi posteriormente desarmado.
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É tempo de apalpar de novo o terreno. Ansiosos por mostrar serviço e subir na hierarquia, os pides estão sempre na brecha. Vitorino Aires, acolitado por um grupo de agentes da PSP e guardas-republicanos mais afoitos, entra no pátio da Albertina e descarrega uma rajada de pistola-metrelhadora contra uma porta que ainda se encontra intacta e fechada.Como ninguém responde, avança para ela.
 
De chofre, vem detrás da porta uma descarga traiçoeira. O pide dá um corcovo instintivo para o lado e corre para trás de uma parede. Sente um arrepio na perna esquerda. Levanta a perna da calça para ver o que era. Uma bala que lhe varara a coxa de lado a lado, logo acima do joelho. «Olha que sorte!» - suspira ele, ao reparar em mais cinco buracos no sobretudo... Como certos animais que se encarniçam à vista de sangue, volta à carga, desta feita contornando o muro pelo lado de fora, não fosse o diabo tecê-las. Repara num rombo de morteiro na parede, que se lhe afigura no enfiamento da porta donde havia sido alvejado. Mete o cano da pistola-metralhadora no buraco e despeja o carregador.
 
Enquanto aguarda resposta, ouve alguém gritar:
 
- Lá vai um!
 
Volta-se e enxerga um indivíduo a fugir em direcção ao monte. Lança-se-lhe no encalço. Mas já um guarda-republicano traz o homem catrafilado pela gola do casaco. Apenas um pacífico habitante do Cambedo que, aterrorizado com tanto morteiro e tanto tiro, dera às de Vila Diogo.
 
Como a perna continuasse a sangrar, o pide requisita uma toalha e atalha. Os camaradas levam-no, quase à força, ao posto de primeiros-socorros. Um médico faz-lhe o primeiro tratamento e aconselha a evacuação para o hospital de Chaves. O ferido jura que não sai do Cambedo sem se vingar. E volta ao campo de operações.
 
Mas eis que a perna se lhe inteiriça e recusa a andar. Embora contrariado, o Vitorino Aires consente na evacuação.
 
A esse tempo, já os agentes da PSP especializados em bombas incendiárias haviam conseguido lançar fogo ao que restava do palheiro e afins. Do montão de ruínas restam apenas um lagar e um pequeno forno intactos, a poucos metros um do outro. Conseguem colocar metralhadoras no enfiamento dessas dependências. Estabelece-se um pingue-pongue de tiro vai, tiro vem, que parece nunca mais ter fim.
 
Pelas dezasseis horas surge, ao cimo das escadas da casa contígua à da Albertina, um sujeito de certa idade. Prendem-no. É Primitivo Garcia Justo, pai do Demétrio. Enquanto o interrogam, o ataque ao lagar e ao forno intensifica-se. Descargas de metralhadora, granadas de mão, bombas incendiárias, disparos de carabina. Os espanhóis vão respondendo. Parcimoniosamente, como quem poupa munições. Até que se calam de vez. Os atacantes suspendem o fogo e aguardam, prudentemente.
 
Nisto, aparece à boca do forno um lenço branco. Pouco depois sai o Demétrio, de mãos no ar. Primeiro algemam-no. Depois esbofeteiam-no. Perguntam-lhe pelos companheiros. Responde que lá dentro está só o cadáver do seu camarada Garcia, que se tinha suicidado. (…)”
 
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Acho que depois de tudo isto que é dito por Bento da Cruz, está mesmo tudo dito, ou quase. Façamos então o resumo dos acontecimentos:
 
Uma aldeia da raia com o nome de Cambedo Raia, 89 fogos, 310 habitantes, 3 guerrilheiros. Cercada por ambos os lados da fronteira por mais de 1000 militares e PIDE. Na batalha, os 310 habitantes civis recolhem-se como podem no entanto uma criança é ferida. Mais de 1000 militares (portugueses e espanhóis) primeiro contra 3 guerrilheiros. Nas primeiras horas de dia 20 Juan é morto, restam 2 guerrilheiros. O combate continua e dura quase 48 horas (mais de 1000 contra 2). De um lado todo um exército, com armas automáticas e pesadas, do outro, 2 guerrilheiros e no meio disto tudo, toda uma população, crianças, mulheres e homens, aterrorizados.
 
Resultado do fim de batalha: Dos três guerrilheiros - 1 é morto (Juan), 1 guerrilheiro suicida-se (Garcia), 1 guerrilheiro rende-se (Demétrio). De parte dos mais de mil militares – dois militares da GNR mortos ( José Joaquim e José Teixeira Nunes) e alguns feridos (poucos), um em estado grave. De parte dos civis, uma menina ferida (Silvina Feijó) com um tiro numa perna. Três casas destruídas e vários palheiros incendiados…e muita gente presa.
 
Tirem daqui as conclusões que quiserem. Eu estou com um dos naturais do Cambedo que há dias me dizia – «Uma vergonha, aquilo foi uma vergonha!»
 
Na realidade a batalha do Cambedo foi uma vergonhosa, desigual, pouco inteligente e evitável batalha na qual os inocentes e civis do Cambedo, foram apanhados sem serem ouvidos, nem achados e nem mesmo considerados. Uma vergonha batalha para os regimes de então, de um e outro lado da fronteira. Vergonha para a PIDE que teve de recorrer a todas as forças militares e militarizadas, exército com armamento pesado e digno de uma guerra a sério contra apenas três guerrilheiros, que lhes deram luta enquanto tiveram munições. Para estes últimos, guerrilheiros, vai a honra e valentia da batalha do Cambedo, guerrilheiros que lutaram até à última bala por uma Espanha livre e que deram a vida por ela, excepção para Demétrio, que não perdeu a vida com a morte, mas perdeu-a como homem livre, mas que mesmo preso, desterrado e torturado pela PIDE nunca vergou e sempre mostrou a postura de “Um Senhor” que lutou pela liberdade.
 
Bento da Cruz numa das passagens do seu livro diz que ninguém ia a contar com mortes, também eu estou em crer que sim, que a PIDE pensou que o assunto do Cambedo era “trigo limpo, farinha Amparo” e menosprezou a força de quem luta por uma causa e até pela própria vida e quando se deparam com a resistência dos guerrilheiros, de entre todas as opções que poderiam ter tomado, optaram pela menos correcta e da qual resultaram 4 mortes e vários feridos, além da destruição de várias casas, palheiros e bens materiais, além do mais grave de tudo, terem aterrorizado toda uma população e ter feito de uma pacata aldeia um autêntico campo de batalha, com recurso ao exército e às suas armas pesadas. Aquilo que foi uma vergonhosa, desigual, indigna e precipitada batalha, sem respeito pela gente inocente do Cambedo (mulheres e crianças) e pelos seus bens, resultou no fim dos acontecimentos e oficialmente numa gloriosa vitória, com promoções e condecorações enquanto que para o povo do Cambedo, em vez de um justo pedido de desculpas, foram presos, obrigados a arcar com as culpas e vergonhas, marcados como vermelhos e perseguidos durante mais três décadas, quando a sua única culpa foi terem, inocentemente, sido hospitaleiros e terem no seu seio vizinhos, amigos e familiares.
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Ainda hoje perduram as ruínas da batalha de dia 21 de Dezembro de 1946
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Já passaram 61 anos sobre os acontecimentos do Cambedo e nunca foi feita justiça ao povo do Cambedo. Silvina Feijó arcou toda a sua vida com um ferimento de “guerra” que lhe deixou mazelas desde os seus 12 anos de idade, nunca foi compensada por isso nem sequer teve um pedido de perdão. Silvino Espírito Santo foi privado da sua reforma, tinha mulher e cinco filhos, era o seu sustento e nunca foi provado qualquer envolvimento com a guerrilha, mas era Guarda Fiscal reformado, vizinho e familiar da família de Demétrio, razões mais que suficientes para aos olhos do estado de Salazar ser culpado e privado da sua reforma. 18 pessoas do Cambedo foram presas e torturadas pela PIDE e embora alguns tivessem saído em liberdade, passaram meses nas masmorras da PIDE.
 
Curiosamente após o 25 de Abril, o povo do Cambedo, os envolvidos, perseguidos e prejudicados, em vez de reivindicarem justiça, humildemente, entraram em estado de amnésia e puseram uma pedra sobre os acontecimentos de 1946. O esquecimento já era por si uma bênção, mas o povo do Cambedo nunca voltou a ser o mesmo.
 
Estranhamente (ou talvez não) por parte das autoridades e personalidades do pós 25 de Abril, quer nacionais quer locais, também nunca houve um abordar dos acontecimentos do Cambedo, foi como se sobre esta aldeia e o seu povo tivesse caído um enorme manto de silêncios e nada tivesse acontecido no Cambedo, pois nunca houve uma simples palavra que fosse, oficial, a pedir desculpas ao povo, que foi mártir, desta aldeia.
 
A pouca justiça que tem sido feita ao Cambedo e mostras de solidariedade, vêm curiosamente do lado Galego e de um ou outro escrito, iniciativa individual, como o de Paula Godinho, ou escritos sobre a guerrilha anti-franquista que passam obrigatoriamente pelo Cambedo, como os de Bento da Cruz. Honra lhes seja feita e na qual este blog bebeu muita da informação existente sobre o Cambedo.
 
Lamentavelmente, que eu tenha conhecimento, nunca da parte da Câmara Municipal de Chaves nem de parte dos nossos nobres historiadores locais houve qualquer interesse sobre os acontecimentos do Cambedo, aliás até há queixas de alguns interessados locais que tinham intenções de se debruçarem sobre o assunto, em nunca terem qualquer apoio ou intenção de apoio para projectos e estudos sobre o Cambedo.
 
Desde o início deste trabalho que disse que o meu olhar sobre o Cambedo é um olhar apaixonado de uma descoberta que fiz percorrendo os caminhos do Juan, o tal que povoava as histórias da minha infância. Descobri o Cambedo sem ter qualquer ligação a esta aldeia e pelo mero acaso do Juan, mas desde início que fiquei surpreendido com os silêncios e as injustiças cometidas com o seu povo. Silêncios que surpreendem tanto que até alguns dos novos descendentes do Cambedo desconheciam os acontecimentos de 1946, tal como a grande maioria da população deste concelho. Espero que nestes dias tivesse dado a conhecer um pouco das verdades possíveis do Cambedo e de como o seu povo tem vivido os seus silêncios e que tal como diz a placa que os Galegos colocaram no Cambedo, entendam também estas minhas palavras como “Uma lembrança ao sofrimento do Povo do Cambedo”.
 
Mas ainda não termina aqui esta série sobre o Cambedo, pois ainda vão passar por aqui nos dois próximos dias, em jeito de homenagem, os nomes, sequelas e mazelas deixadas no povo do Cambedo e também um pouco de como a imprensa da época tratou os acontecimentos.
 
Até amanhã, vésperas de Natal e fiquem também no vosso imaginário (em jeito de reflexão) com o Natal de 1946 das gentes do Cambedo.
 


publicado por Fer.Ribeiro às 03:43
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 9 - Primeiro dia de Batalha

 

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Cambedo, dia 20 de Dezembro de 1946, 1º Dia da Batalha.
 
Faz hoje precisamente 61 anos em que os acontecimentos do Cambedo têm início e se dá o 1º dia da Batalha.
 
Oficialmente sobre a Batalha do Cambedo há os relatórios da GNR e da PIDE, feitos à maneira oficial da altura em que se relatava aquilo que convinha e era conveniente relatar, o politicamente correcto para ser oficialmente aceite e também tendo em vista (claro) a promoção dos relatores. Quanto à imprensa da altura, relatava-se o que era dito pelas autoridades de então, mas sobretudo inventou-se, especulou-se e denegriu-se a imagem dos guerrilheiros, que nunca foram tratados como tal, ou seja, disse-se o que era oficialmente aceite pelo regime de Salazar ou que convinha ser dito e a mais não se atreviam e mesmo que se atrevessem seria censurado. Mais à frente, num próximo post, passará por aqui o que foi dito sobre os acontecimentos do Cambedo:
 
 
E assim foi até aos anos 80 em que apenas existiam por um lado os relatos oficiais da PIDE e do sistema e pelo outro, os silêncios do Cambedo (dos vermelhos como eram rotulados). Quanto a documentação sobre o assunto só a oficial, em arquivo, na qual nunca ninguém se tinha atrevido mexer, até então.
 
Pela documentação e publicações a que tive acesso, Jorge Fernandes Alves – Cadernos Culturais 2 – «O Barrosos e a Guerra Civil de Espanha», Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981, teria sido o primeiro a mexer no tema e na guerrilha antifranquista da raia e, a trazer a lume algumas verdades até então nunca ditas. Logo seguido pelo jornalista Artur Queirós e Paula Godinho que fez um excelente trabalho de levantamento sobre os guerrilheiros e o Cambedo e, ainda Bento da Cruz, sobre todos os guerrilheiros e guerrilha na raia portuguesa, sobretudo no Barroso, tal como José Dias Batista. Todos eles com trabalhos interessantes sobre a guerrilha antifranquista. Depois os já mencionados documentários, televisão, filmes, homenagens, mais publicações e por aí fora… Aos poucos ia-se desvendando algumas (sublinho algumas) verdades-verdadeiras sobre o Cambedo, sobretudo com testemunhos das pessoas que viveram directamente os acontecimentos. No entanto, ainda hoje me dizem pessoas do Cambedo, que a verdade (toda a verdade) nunca foi contada e talvez nunca venha a ser contada, pois já restam poucos sobreviventes directamente intervenientes nos acontecimentos, e os poucos que ainda estão vivos preferem remeter-se ao silêncio.
 
Mas estou a desviar-me do assunto deste capítulo e que é o primeiro dia da Batalha do Cambedo.
 
São sete horas da manhã de 20 de Dezembro de 1946, o Cambedo ainda dorme mas está cercado por ambos os lados da fronteira, pelos militares fiéis a Franco (do lado espanhol) e por militares portugueses (PIDE, GNR, Guarda Fiscal, PSP, e mais tarde o Exército) prontos para lançar o ataque à aldeia. Demétrio, Garcia e Juan, dormiam. Juan em casa de Engrácia Gonçalves, Demétrio e Garcia em casa da irmã de Demétrio a casa do Mestre, Manuel Bárcia, dormiam com uma única preocupação: - a matança do porco prevista para essa manhã, fria, gelada. O cão do Mestre (cão de contrabandista sempre atento a todos os sinais estranhos (sic Artur Queirós) começa por dar o sinal de que algo estranho se passava. O Mestre desperta e apercebe-se do cerco. Avisa Demétrio e Garcia…
 
A partir de aqui seguimos o que é relatado por Bento da Cruz no seu livro “Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes”
 
 
 
“(…) Eles nisto, ouvem-se tiros nas traseiras da casa da Engrácia. Acodem todos ao local.
 
Otelo Puga (PIDE) vangloria-se de, e passo a citar «por intuição defensiva, fi-lo, por nossa felicidade, recuando e de pistola-metralhadora aperrada.
 
Pelo que, depressa me apercebi de que dois indivíduos, com carabinas em bandoleira e com pistolas na mão, fugiam por entre umas pilhas de achas de pinho, que se encontravam a cerca de trinta metros de nós, juntas a umas medas de palha, num quinteiro defronte da casa de onde tinham partido os primeiros tiros».
 
Desfecha-lhes uma rajada. Os fugitivos atiram-se ao chão e ripostam.
 
Mota de Freitas, Joaquim Alves e o guarda-republicano entrincheiram-se atrás de uma parede e atiram também.
 
Nisto, a palha começa a arder e um dos fugitivos tenta a fuga.
 
Joaquim Alves e o guarda-republicano lançam-se-lhe no encalço.
 
Otelo Puga continua a metralhar e sítio onde o outro se atirara ao chão, não fosse ele alvejar os colegas pelas costas.
 
Num gesto rápido, o primeiro fugitivo volta-se e mete dois tiros numa perna ao Joaquim Alves. O guarda-republicano recua e protege-se. Os outros acodem. Como o segundo fugitivo não tugisse nem mugisse, avançam para ele. Não encontram ninguém. Acorrem a prestar os primeiros socorros ao Joaquim Alves.
 
Mata de Freitas aproveita para despachar um estafeta ao Couto a pedir a comparência das forças para ali destacadas e um outro a Chaves a comunicar ao comandante da Companhia o ocorrido e a pedir o envio de mais forças.
 
Otelo Puga obriga a Engrácia a abrir a porta e a fornecer a identidade dos fugitivos. Ela jura que, lá de casa, não saíra ninguém. Prendem- na.
 
Neste interim, grande alarido lá para a coroa do povo. Mata de Freitas envia dois guardas-republicanos a ver o que se passa. Eles estugam o passo, rua acima. À curva da capela deparam com um grupo quase bíblico: um camponês com um macho pela arreata; um outro em cima do macho, escachapernado na albarda, com uma garotita nos braços; em redor, populares aos gritos.
 
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A foto actual de Silvina Feijó, 61 anos após ter sido ferida na "Batalha do Cambedo"
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Os GNRs interceptam-nos e inquirem. Falam todos ao mesmo tempo. Que a garota está ferida. Que é preciso levá-la ao hospital. E mostram a perna da menina com a tíbia e o peróneo fracturados e expostos, envoltos numa toalha ensanguentada.
 
E o homem da arreata, pai da menina, explica. Estava ele a aparelhar o macho debaixo da varanda, quando uma saraivada de balas varreu a casa, a toda a largura. Ele cosera-se instintivamente com um poste de pedra. O macho fugira, espavorido. Mas a menina, que estava na varanda a atirar migalhas de pão às pitas, no suflagrante de se recolher dentro da cozinha, tombara na soleira da porta.
 
Os guardas duvidam. A casa atingida ficava bem à coroa do povo, a uns duzentos metros ou mais da casa da Engrácia, donde se haviam disparado os únicos tiros.
 
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Os populares insistem na urgência de levar a menina ao hospital, antes que se escoe em sangue.
 
Os guardas-republicanos deixam passar o trio do macho. Os outros que fossem para casa.
 
Havia ordens de, genericamente, deter todos aqueles que tentassem entrar ou sair da aldeia. Mas este era um caso imprevisto.
 
Levam os dois camponeses e a menina ao comandante. Este reúne o estado-maior. Discutem demoradamente o assunto. Por fim acordam deixar, por especial favor, prosseguir a enferma e os dois acompanhantes caminho de Chaves, a umas três horas de jornada pedestre.
 
E com isto se derretem uns cinquenta minutos, findos os quais se ouvem tiros lá para a fronteira, a cerca de um quilómetro de distância, costa arriba.
 
A operação Cambedo havia sido montada de súcia entre as autoridades portuguesas e espanholas. Mota de Freitas sabia que a raia estava guardada por um forte contingente de guardas-civis. Conjecturou logo que os fugitivos (nessa altura ainda se supunha que fossem dois) haviam esbarrado nas armas espanholas e retrocedido. Ordena a um grupo de guardas-republicanos que bata a colina subjacente à fronteira. E que os outros não descurem as entradas e saídas da povoação.
 
Acabavam de evacuar o pide Joaquim Alves, vem de lá do fundo, de um ribeiro que flanqueia o Cambedo pelo poente, no sentido norte-sul, o eco de um tiro. Mota de Freitas envia um GNR a saber o que se passa. O emissário vai a passo e regressa a correr, todo alvoroçado. Que um dos fugitivos fora morto. Quedam todos entre espantados e surpreendidos. No fundo ninguém ia a contar com mortes.
 
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Mota de Freitas pergunta se alguém conhece o defunto. Todos o conheciam. Era o Juan, ou Facundo.
 
Neste comenos, chegam os vinte guardas-republicanos que haviam sido destacados para o Couto, sob o comando do sargento Meireles.
 
Pelas onze horas principia a revista às casas. A primeira é a da Engrácia. Não topam nada de especial.
 
Passam à do João Valença, do outro lado da rua. Encontram o José Barroso, filho da Engrácia, deitado numa cama a fingir que ressona. Perguntam-lhe por que razão está a dormir em casa da vizinha, em vez de estar em casa da mãe. O rapaz não atina com uma resposta satisfatória. Prendem-no e passam à frente.
 
Pelas treze horas, iam as buscas por alturas do quartel da guarda-fiscal, ouve-se de novo o ladrar duma pistola-metralhadora. Voltam-se todos para as bandas de onde os latidos tinham vindo. Vêem um guarda-republicano a tropeçar nas próprias pernas, olhos esbugalhados, lívido, sem fala. Rodeiam-no. Ele aponta o pátio da Albertina. Gagueja.
 
Que haviam entrado três. Dois ficaram lá. Ele salvara-se por milagre. E quem havia atirado? Não vira. Mas parecera-lhe que os disparos haviam saído de um palheiro.
 
Os guardas-republicanos e o pide ainda operacional quedam a olhar uns para os outros, atónitos, incrédulos, hesitantes. E agora?
 
Eis que chegam, vindos de Chaves, os guardas que haviam sido destacados para Nantes, sob o comando do tenente Santos. Com eles vinha o pide Vasco da Rocha Guerra. Parlamentam. Alguém levanta a hipótese de os sitiados se apoderarem das armas, ou mesmo das fardas, dos guardas mortos. Que fazer?
 
Prudentemente, por largo, a coberto de paredes e árvores, cercam um quarteirão de três casas que parecem comunicar umas com as outras.
 
...............................................................................
 
 
= Legenda =
 
1 -  Quartel da Guarda Fiscal
2 - Casa de Silvino Espírito Santo (G.F. Reformado)
3 - Casa de Octávio Augusto, Guarda Fiscal a prestar serviço no Cambedo.
4 - Casas de Albertina Tiago e do Mestre Bárcia, onde Demétrio e Garcia pernoitavam no dia dos acontecimentos.
5 - Anexos (lagar e forno) das casas de Albertina Tiago e do Mestre Barcia, onde Demétrio e Garcia se abrigaram durante a "Batalha"
6 - Pátio das casas de Albertina Tiago e do Mestre Bárcia, onde foram mortos os dois guardas da GNR
7 - Casa onde pernoitava Juan Salgado
............................................................
 
 
A dada altura, assoma uma cabeça a uma janela. Otelo Puga intima o curioso a recolher-se, se não quer ser alvejado. O curioso recolhe a cabeça, estende o braço e chispa fogo.
 
«Mais uma vez fui bafejado pela sorte...» - deixou escrito o Puga, muito ufano pela esperteza de se ter protegido com a umbreira de uma porta. Os outros protegem-se também. O caso estava a ficar sério.
 
Na bagagem dos recém-chegados de Chaves vinham algumas granadas de mão e bombas incendiárias. O tenente Santos manda incendiar o palheiro. Os engenhos são lançados. O palheiro, porém, resiste. Avançam as granadas de mão. Falham também. Então obrigam o Manuel Bárcia a incendiar o palheiro - «e em meia hora tudo ficou reduzido a cinzas, restando apenas de pé as paredes».
 
Já no pleno uso da língua, o guarda milagrosamente escapo, acusa uma das donas de casa de lhes ter dito que podiam entrar à vontade, que, ali, não estava ninguém. Trata-se de Manuela Garcia Álvarez, irmã do Demétrio e mulher do Manuel Bárcia. Prendem-na. Ela defende-se dizendo que não mentira. Que, em sua casa, não estava ninguém. Se houve tiros e mortes, isso foi no pátio da sua prima e vizinha Alberina Tiago. Perguntam-lhe pelo número de bandoleiros. Ela responde que ignora.
 
Obrigam de novo o Manuel Bárcia, como familiar e amigo dos espanhóis, a ir buscar os dois guardas mortos e respectivas armas.
 
Ele, de início, recusa. Ante a ameaça de fuzilamento, obedece.
 
Mas demora. Arrastar um cadáver ainda quente, de mais a mais de um guarda-republicano, não é tarefa agradável, nem fácil. Gritam-lhe que se mexa. Mas ele não tem pressa nenhuma.
 
Por fim aparece à cancela, às arrecuas, com o morto sopesado pelos sovacos, nádegas, pernas e botas a varrer o cisco do chão.
 
- Para aqui! - gritam-lhe detrás da esquina.
 
Ofegante, o Bárcia alija o cadáver no sítio indicado. Identificam-no. Trata-se do soldado de lª classe do posto da GNR de Chaves, José Joaquim, de 34 anos, solteiro (1), natural da freguesia da Sé, Lamego. Está crivado de balas de alto a baixo.
 
Gritam de novo ao Mestre que se despache. Mas ele não se dá por achado. De vez em quando alija o cadáver e limpa o suor da testa ao canhão da véstia. Por fim, com um arranco de desespero e revolta, arrasta o outro cadáver para a rua principal, onde o comandante e respectivos lugares-tenentes o aguardam, cosidos com as paredes. Identificam-no: José Teixeira Nunes, 37 anos, natural da freguesia de Oliveira, Amarante, casado e pai de três filhos menores. Apresenta, na região posterior do tronco, nove orifícios correspondentes à entrada de outras tantas balas de calibre 9, disparadas à queima-roupa.
 
Tratam de despachar os dois mortos para Chaves. O tenente Santos aproveita para pedir a comparência do comandante da Companhia e o envio de mais granadas.
 
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À esquerda (em primeiro plano) Quartel da Guarda Fiscal, à direita os portões do pátio de Arbertina Tiago e do Mestre Bárcia
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Enquanto isto, o tiroteio continua. Impossibilitados de sair de casa, pessoas e animais desesperam. Assustadas, as crianças choram. Espavoridas, as aves fogem das árvores e as galinhas das eiras. Incomodados pelas bombas e pelos tiros, os cães uivam, incessantemente. Apreensivos e tristes com a morte dos dois companheiros, os guardas só desejam uma coisa, que os espanhóis se rendam e o tiroteio acabe. Mas eles não se renderam, tarde fora, até a noite cair.
 
Para evitar que eles se aproveitem das trevas para se evadirem, os sitiantes incendeiam duas medas de palha situadas defronte da casa da Albertina, do outro lado da rua.
 
Neste meio tempo, arribam os guardas-republicanos que haviam sido destacados para Sanfins de Castanheira, sob o comando do tenente Antunes. Com eles, o pide Hélder Cordeiro Alves. Trazem dois projectores eléctricos. Colocam-nos de modo a iluminar as traseiras da casa da Albertina.
 
Entretanto, noite dentro, vão chegando: o comandante da Companhia, capitão Alexandre Medeiros; um destacamento da PSP do Porto, e, com ele, o pide Vitorino Antero Alves; um pelotão de Caçadores 10 de Chaves, especializado em morteiros de campanha.
 
Instalam o comando no quartel da guarda-fiscal, casa de loja e sobrado, com duas janelas. A do norte dá para uma travessa de três metros de largura. Do outro lado ficam duas cancelas contíguas. A primeira de acesso ao eido do Manuel Bárcia; a segunda ao quinteiro da Adelaide Teixeira, de onde, a espaços, vêm rajadas de pistola-metralhadora.
 
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à Direita, Quartel da Guarda Fiscal, ao fundo os portões do pátio de Albertina Tiago e Mestre Bárcia
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O comandante em campo ordena a um agente da PSP, vindo do Porto, que arremesse granadas de gás lacrimogénio sobre o «covil dos bandoleiros» cujo número toda a gente calcula serem seis ou mais.
 
Mas o vento pica do norte e vira o feitiço contra o feiticeiro. Desistem. A noite, sem lua, está gelada. Uns sopram às mãos, outros batem os pés no chão. Há quem, sorrateiramente, deslize para dentro dos pátios, dos estábulos, dos palheiros e se recoste às paredes, armas em descanso.
 
No quartel da guarda-fiscal há uma braseira. Os maiorais avivam as brasas e trocam opiniões. Todos concordam em que eles não têm qualquer hipótese. Ou se rendem ou morrem. É tudo uma questão de tempo.
 
Dos habitantes do Cambedo, raro é aquele que consegue pregar olho. Pelas cinco horas, o palheiro incendiado extingue-se de todo.
 
O comandante recorre de novo a um PSP perito em foguetes luminosos. Estes, porém, chegam ao fim e o dia não há meio de romper.
 
Então o pide Vitorino Aires oferece-se para incendiar outra meda de palha existente no local. O comandante aceita o alvitre. Mas a tarefa não é fácil, dado que o alvo fica no raio de acção das balas inimigas. O Vitorino aproxima-se o mais que pode e lança um fachuco de palha embebido em petróleo. Com tão boa fortuna que a meda se incendeia.
 
O dia está quase a nascer, já é dia de 21 de Dezembro, por isso, só amanhã é que passará por aqui.
 
Até amanhã.
 
(1) - (Em tempo):

Por um comentário da neta do militar da GNR de José Joaquim (de 12/06/08) ficamos a saber que o militar era casado com Filomena da Conceição e pai de Manuel Joaquim, que na altura tinha apenas 1 ano de idade.



publicado por Fer.Ribeiro às 03:26
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Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 8 - A concentração e o Cerco

 

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A CONCENTRAÇÃO, O CERCO E PREPARAÇÃO DO ATAQUE AO CAMBEDO
 
A preparação do ataque ao Cambedo começou muito antes do próprio cerco e ataque.
 
Já aqui foi mencionado que a guerra civil espanhola terminou em 1939. A partir desta data só a guerrilha antifranquista galega e asturiana fazia frente, oposição e mossas ao regime de Franco. Como já aqui foi focado também, muitos dos guerrilheiros galegos procuravam abrigo no lado português da fonteira. Todos nós sabemos também o bom relacionamento que Franco tinha com Salazar e a assinatura entre ambos de um pacto de não-agressão em 1939, pós guerra civil. Daí se poderá concluir que a presença de guerrilheiros antifranquistas na raia portuguesa nunca foi bem vista por Franco, logo também não o seria por Salazar.
 
 
É sabido que tanto a Guarda Fiscal como a Guarda Nacional Republicana locais, principalmente a primeira, inicialmente fizeram vista grossa à presença dos guerrilheiros (ou espanhóis como eram conhecidos então), havendo mesmo o testemunho de casos curiosos como o do Cabo Canavarro, chefe do posto da Guarda Fiscal de Roriz, que deteve em Cimo de Vila dois guerrilheiros (Miguel Candeñas e o Enrique), levou-os para o quartel, confiscou-lhes os isqueiros mandou-os em paz (só a título de curiosidade, para os mais novos, o uso de isqueiros na época estava sujeito a licenciamento, sem o qual não poderiam ser usados). 
 
Já o mesmo não acontecia com a PIDE, mas não era fácil encontrar guerrilheiros que eram acolhidos no ceio das famílias das aldeias e muitas vezes até confundidos com gente de família ou trabalhadores temporários dos campos. Para chegar até aos guerrilheiros, a PIDE disfarçou-se de mendigos e contrabandistas para melhor conhecer os seus movimentos. Por sua vez, do lado espanhol, foram criados grupos de anti-guerrilha, que se vestiam como guerrilheiros e que actuavam como eles, tudo para os desacreditar, pois havia que criar uma má imagem dos guerrilheiros e alimentar a fama de que eles eram bandoleiros, simples atracadores e assassinos, bandidos e em simultâneo (estou em crer), arranjar um nome conhecido de entre eles que personalizasse esse mal do “bandoleiro galego” e, eis que em 16 de Setembro de 1946 se dão três mortes em Negrões (Montalegre), no caso que ficou conhecido como o caso “do Pinto de Negrões”, que foi levado a cabo pelo grupo de guerrilheiros do Girón, com 7 guerrilheiros, entre os quais o Juan (suponho que por conhecer Negrões, a casa do Pinto e o próprio Pinto, com quem tinha trabalhado nas minas de volframio) e o Garcia & Garcia. Ao que tudo leva a crer, estas mortes resultam do cumprimento de uma “sentença de morte” de um “tribunal” de guerrilha, e pela simples razão de o Pinto de Negrões ter atraiçoado a guerrilha ao denunciar durante a guerra civil alguns espanhóis, sendo o último, o caso de um médico espanhol que teria passado pelo Cambedo e depois conduzido até ao Couto de Ervededo e daqui o “Nacho” ter-se-ia encarregue de o encaminhar até caso do Pinto em Negrões e que este, em vez de o encaminhar para Braga/Porto e daí fazer a sua fuga de Portugal, entregou-o na fronteira à Guarda Civil, onde foi fuzilado.
 
Claro que esta não é a história oficial que decorreu na imprensa da época e nos tribunais do Porto e de onde (tudo leva a crer) um inocente de uma aldeia vizinha de Negrões é acusado como mandante e condenado como tal e os bandoleiros espanhóis (leia-se guerrilheiros) como executantes do crime, tudo com base em testemunhos que se iniciavam por “ouvi dizer que…”. Também não ficou claro, nem provado, se os guerrilheiros apenas levavam a intenção de matar o Pinto de Negrões, ou se levariam também a intenção de o roubar. O facto é que não o roubaram e deixando uma avultada quantia de dinheiro em sua casa.
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Finalmente a PIDE encontrava na guerrilha um erro político crasso ao actuarem em terras de Portugal e simultaneamente podiam por fim dar nome e personalizar “os atracadores” num nome, que até já era conhecido na região: O Juan.
 
Embora se saiba que a passagem do Juan pela guerrilha foi breve e nunca foi chefe de nenhum grupo de guerrilheiros, a partir da morte do Pinto de Negrões, o Juan passou a ser a guerrilha em si, ou melhor o “atracador” em si e o chefe de todos os atracadores e atracos, a PIDE encarregava-se da publicidade.
 
Este erro da guerrilha ou de um grupo da guerrilha viria a trazer-lhes trágicas consequências. Começaram por perder os apoios que tinham do lado de cá da fronteira e, aos olhos do povo, deixaram de ser “fuxidos” ou contrabandistas simpáticos, homens de honra até, para passarem a ser olhados com desconfiança e, aos olhos de alguns, como os autênticos bandidos, bandoleiros e atracadores perigosos, que matavam pessoas, isto nas aldeias de acolhimento, porque fora delas e graças à PIDE e imprensa da época, quase sempre foram vistos como atracadores.
 
A partir de aqui tudo foi diferente para os guerrilheiros galegos e começou-se a desenhar e organizar por parte da PIDE, conjuntamente com as autoridades espanholas de Franco, o ataque aos guerrilheiros. Mas antes ainda era preciso acabar por “fazer a cabeça” da população e, ter dela também o apoio de modo a justificar o que se viria a passar, reforçando que o Juan era um líder e chefe de atracadores (que nunca o foi) e outras maldades que eram atribuídas aos guerrilheiros.
 
Em 29 de Outubro de 1946 acontece o caso do assalto à carreira de Braga-Chaves, cheia de passageiros que se dirigiam para a Feira dos Santos anual de Chaves, encenado, ao que tudo aponta pela anti-guerrilha, pela Brigantilha de Franco e pela PIDE, no qual durante o mesmo houve o cuidado de encenarem a culpabilização do Juan e do seu suposto grupo: «D.Juan, mato lo chofer?» Ao que o presuposto Juan respondeu: « Nom. Pincha los pneumáticos.» conforme passagem já aqui focada no primeiro post desta série dedicada ao Cambedo, no livro de Bento da Cruz – O Lobo Guerrilheiro.
 
Uma vista de olhos pela imprensa da época é suficiente para ver a quem foram atribuídas as culpas.
 
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Com todas estas encenações e, a preocupação das autoridades personalizarem no Juan um chefe dos “atracadores”, tudo leva a crer que as autoridades e a PIDE conheciam perfeitamente quer o paradeiro certo do Juan como o próprio Juan, o Garcia e o Demétrio. Como o sabiam!? Acho que é uma pergunta de fácil resposta, mas também para ficar sem resposta, embora se saiba da possibilidade dos mendigos e contrabandistas (PIDEs) infiltrados nas aldeias da raia, penso que toda a leitura da guerrilha passou também por denúncias à qual não teria sido estranha a actuação, o incentivo e, o fomentar da denúncia dos “espanhóis” por parte de um grande inimigo da guerrilha ou dos vermelhos, alinhados com o regime de Salazar, como o foi a imprensa da época e principalmente o jornal ERA NOVA de Chaves e o seu director Luís Borges Júnior, tenente e depois capitão, administrador do concelho de Chaves, inspector delegado da Polícia Internacional (PIDE), instrutor da Legião Portuguesa e Presidente da Câmara desde 1938. Diz dele quem o conheceu que era um homem de ambição desmedida, sempre pronto a cair nas graças do regime e ao qual (SIC testemunho anónimo) – «um …,  queninguém gramava!». Isto é só um bocadinho do que dele se diz, por exemplo num dos livros de leitura obrigatória sobre a guerrilha «O Barroso e a Guerra Civil de Espanha», Cadernos Culturais, Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981
 
Curiosamente e misteriosamente, todos os jornais ERA NOVA da época, desapareceram do arquivo da Biblioteca Municipal de Chaves, só me sendo possível chegar até ele, por algumas transcrições feitas nos referidos Cadernos Culturais.
 
A partir do caso do Pinto de Negrões e do Assalto a carreira de Braga-Chaves, a PIDE e a Guarda Civil (leia-se Salazar e Franco) tinham todas as condições para organizar um ataque à guerrilha e aos seus paradeiros.
 
Assim, e segundo o relato mais entusiasta dos acontecimentos, vamos até ao livro Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes de Bento da Cruz para saber o que se diz ao respeito:
 
“ Às zero horas desse dia (20 de Dezembro de 1946) concentraram-se no posto de Chaves uns duzentos  guardas-republicanos vindos do Porto (?) - (a interrogação é minha, à frente se perceberá) da Régua e de Vila Real.
 
O comandante dividiu-os em grupos e destinou um para cada uma das seguintes povoações: Nantes, Mosteiró de Cima, Sanfins de Castanheira, Sanjurge, Couto e Cambedo.
 
Partiram às três da madrugada.
 
O do Cambedo era chefiado pelo alferes Mota de Freitas. Nele iam integrados os pides Otelo Puga e Joaquim Alves, aquele vindo do Porto e este a prestar serviço no posto de Vila Verde da Raia.
 
Até Vilarelho, foram de camião. Daqui para a frente, a butes.
 
Chegaram às seis. O alferes Mota de Freitas postou o pessoal à entrada e à saída da povoação, na frente e nas traseiras das casas suspeitas, a saber: a da Escolástica, a do Adolfo, a do Mestre, a do Silvino e a da Engrácia.
 
Mas o pessoal de que dispunha não chegava para as encomendas.
 
Na da Engrácia, a primeira à direita de quem entra no povoado, no sentido sul-norte, ficou apenas o pide Otelo Puga de vigia à porta da rua e um guarda-republicano nas traseiras.
 
Pelas sete horas, o alferes Mota de Freitas e o pide Joaquim Alves, vêm comunicar que está tudo apostos para um ataque surpresa ao romper o dia.”
 
Paula Godinho, na já mencionada Revista História afirma no entanto que:
 
- “ Para realizarem o cerco, as autoridades haviam recorrido a uma panóplia de forças de que excluíam as que localmente representavam o Estado. Assim, encontravam-se presentes elementos da Guarda Nacional Republicana de Alijó, Chaves, Mesão Frio, Poiares, Santa Marta de Penaguião, Pinhão, Régua e mesmo do Porto, soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, de Chaves, agentes da polícia e carabineiros, comandados por António Prieto Rodrigues.”
 
O sargento Cruz que comandou os soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, num depoimento seu no livro «Cambedo da Raia 1946” diz:
 
- “ entraram nesta acção mais ou menos 1000 pessoas, mais ou menos 500 espanhóis da guardia civil e outros tantos portugueses – para além dos soldados do meu quartel, elementos da GNR e agentes da PIDE.» do mesmo depoimento ficámos ainda a saber que as tropas espanholas, do lado português, eram comandadas por um Tenente-Coronel.
 
Este último depoimento (do Sargento Cruz) é um depoimento testemunhal, pois ele esteve presente e comandou o ataque com morteiros ao Cambedo e, não é resultante de um relatório oficial da época (já sabemos como eram os relatórios oficiais). Mas além de nos dar ideia do número de militares envolvidos no ataque (e que vão de encontro aos militares mencionados por Paula Godinho e outros escritos) também nos dá a saber que os militares espanhóis estavam de ambos os lados da fronteira.
 
Há quem vá mais longe e atribua só ao lado de lá da fronteira (Galiza) mais de 1500 militares.
 
Sete horas da manhã de 20 (?) de Dezembro de 1946 o Cambedo ainda dorme mas está cercado por ambos os lados da fronteira pelos militares fiéis a Franco e militares portugueses, prontos para lançar o ataque à aldeia.
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 Após os acontecimentos do Cambedo esta foi a única notícia que saíu no jornal local  « O Comércio de Chaves»
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Ainda antes do ataque ao Cambedo vamos fazer aqui um aparte quanto à data do ataque, pois segundo toda a documentação que consultei, surgiram-me as datas de 19, 20, 21 e 22 de Dezembro. A data de 19 de Dezembro surge no jornal local “ O Comércio de Chaves” quando afirma no início do artigo sobre os acontecimentos do Cambedo: “ Repercutiram dolorosamente nesta cidade os acontecimentos de Quinta-Feira passada, na povoação do Cambedo” – Ora se a publicação do Comércio de Chaves é de Quinta-Feira, dia 26 de Dezembro, a tal Quinta-Feira passada tinha de ser dia 19. No entanto a mesma notícia entra em contradição quando no seu desenrolar se afirma: “A G.N.R. havia tomado conta do cerco à povoação do Cambedo e depois da sua actuação, no sábado passado”  Ora o tal Sábado passado era dia 21. Poderia ter sido um lapso, o que não deixa de ser um lapso estranho que confunde e baralha quinta-feira com sábado, ou será que no dia 19 aconteceu alguma coisa no Cambedo ou fora dele?, testemunhas do Cambedo dizem-nos que na aldeia nada aconteceu. Mas alguma coisa despoletou os acontecimentos seguintes de 20 e 21 de Dezembro. No entanto a pergunta, além de ficar, para já, sem resposta, também me deixa a pensar… Por outro lado o Sargento Cruz menciona como dias do ataque, os dias 21 e 22 de Dezembro (poderia ser uma traição da memória – acredito que sim, pois já lá vão 61 anos). Por sua vez o soldado da GNR que acaba com a vida de Juan recebe uma medalha lembrando a data de 20 de Dezembro, entretanto o registo de óbito do Juan Salgado na Conservatória do Registo Civil de Chaves, menciona a data de 21 de Dezembro (com base no necessário relatório do Delegado de Saúde, na altura o Dr. Alcino Morais e que eu próprio verifiquei), como data da morte de Juan. No entanto a maioria da documentação consultada e quase todos os testemunhos, menciona a data de 20 (para a concentração,cerco e início do ataque que duraria o dia todo, onde logo pela manhã teria morrido o Juan) e dia 21 (continuação do ataque ao Cambedo que finalizaria ao fim da tarde deste dia com o suicídio do Garcia e a rendição de Demétrio).
 
Embora a data dos acontecimentos tenha (pela minha parte) a mesquinhez de um pormenor, vamos tomar estas últimas datas com certas (20 e 21 de Dezembro) e que a data de 19 de Dezembro teria sido apenas lapso do “Comércio de Chaves”, embora estranho lapso esse.
 
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 Concluindo, às zero horas de dia 20 começa a concentração de militares em Chaves, partem às 3 da manhã e chegam ao Cambedo às 6 da manhã e cercam-no. Ao nascer do dia os militares destacados para a operação estão em posição à volta do Cambedo e das casas suspeitas e, iniciam o ataque, que daria em combate, que decorrem durante todo o dia e noite de 20 para 21. Continuam durante todo o dia de 21 até ao final da tarde, por volta das 17 horas.
 
Embora não se saiba ao certo quantos militares iniciaram esta operação no dia 20, suponho que apenas umas dezenas, entre GNR, Guarda Fiscal e PSP, além dos agentes PIDE, logo nas primeiras horas e já após a morte de Juan, deram-se conta que precisavam de reforços, que foram chegando ao longo do dia, entre os quais a secção de morteiros do exército. Ao todo, mais de 1000 militares, entre portugueses e espanhóis da GNR, Guarda Fiscal, PSP, PIDE, Exército (secção de morteiros) e Guarda Civil (espanhola), isto só do lado português para cercarem e atacaram o inimigo do Cambedo, que nesta fase eram tantos como o Demétrio e o Garcia, pois o Juan já tinha sido abatido.
 
A julgar pelos números já se está a adivinhar uma batalha renhida, cujos pormenores ficam para amanhã, dia 20 de Dezembro, precisamente quando passam 61 anos sobre os acontecimentos.
 
Até amanhã!
 


publicado por Fer.Ribeiro às 02:15
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