Quarta-feira, 19 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 8 - A concentração e o Cerco

 

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A CONCENTRAÇÃO, O CERCO E PREPARAÇÃO DO ATAQUE AO CAMBEDO
 
A preparação do ataque ao Cambedo começou muito antes do próprio cerco e ataque.
 
Já aqui foi mencionado que a guerra civil espanhola terminou em 1939. A partir desta data só a guerrilha antifranquista galega e asturiana fazia frente, oposição e mossas ao regime de Franco. Como já aqui foi focado também, muitos dos guerrilheiros galegos procuravam abrigo no lado português da fonteira. Todos nós sabemos também o bom relacionamento que Franco tinha com Salazar e a assinatura entre ambos de um pacto de não-agressão em 1939, pós guerra civil. Daí se poderá concluir que a presença de guerrilheiros antifranquistas na raia portuguesa nunca foi bem vista por Franco, logo também não o seria por Salazar.
 
 
É sabido que tanto a Guarda Fiscal como a Guarda Nacional Republicana locais, principalmente a primeira, inicialmente fizeram vista grossa à presença dos guerrilheiros (ou espanhóis como eram conhecidos então), havendo mesmo o testemunho de casos curiosos como o do Cabo Canavarro, chefe do posto da Guarda Fiscal de Roriz, que deteve em Cimo de Vila dois guerrilheiros (Miguel Candeñas e o Enrique), levou-os para o quartel, confiscou-lhes os isqueiros mandou-os em paz (só a título de curiosidade, para os mais novos, o uso de isqueiros na época estava sujeito a licenciamento, sem o qual não poderiam ser usados). 
 
Já o mesmo não acontecia com a PIDE, mas não era fácil encontrar guerrilheiros que eram acolhidos no ceio das famílias das aldeias e muitas vezes até confundidos com gente de família ou trabalhadores temporários dos campos. Para chegar até aos guerrilheiros, a PIDE disfarçou-se de mendigos e contrabandistas para melhor conhecer os seus movimentos. Por sua vez, do lado espanhol, foram criados grupos de anti-guerrilha, que se vestiam como guerrilheiros e que actuavam como eles, tudo para os desacreditar, pois havia que criar uma má imagem dos guerrilheiros e alimentar a fama de que eles eram bandoleiros, simples atracadores e assassinos, bandidos e em simultâneo (estou em crer), arranjar um nome conhecido de entre eles que personalizasse esse mal do “bandoleiro galego” e, eis que em 16 de Setembro de 1946 se dão três mortes em Negrões (Montalegre), no caso que ficou conhecido como o caso “do Pinto de Negrões”, que foi levado a cabo pelo grupo de guerrilheiros do Girón, com 7 guerrilheiros, entre os quais o Juan (suponho que por conhecer Negrões, a casa do Pinto e o próprio Pinto, com quem tinha trabalhado nas minas de volframio) e o Garcia & Garcia. Ao que tudo leva a crer, estas mortes resultam do cumprimento de uma “sentença de morte” de um “tribunal” de guerrilha, e pela simples razão de o Pinto de Negrões ter atraiçoado a guerrilha ao denunciar durante a guerra civil alguns espanhóis, sendo o último, o caso de um médico espanhol que teria passado pelo Cambedo e depois conduzido até ao Couto de Ervededo e daqui o “Nacho” ter-se-ia encarregue de o encaminhar até caso do Pinto em Negrões e que este, em vez de o encaminhar para Braga/Porto e daí fazer a sua fuga de Portugal, entregou-o na fronteira à Guarda Civil, onde foi fuzilado.
 
Claro que esta não é a história oficial que decorreu na imprensa da época e nos tribunais do Porto e de onde (tudo leva a crer) um inocente de uma aldeia vizinha de Negrões é acusado como mandante e condenado como tal e os bandoleiros espanhóis (leia-se guerrilheiros) como executantes do crime, tudo com base em testemunhos que se iniciavam por “ouvi dizer que…”. Também não ficou claro, nem provado, se os guerrilheiros apenas levavam a intenção de matar o Pinto de Negrões, ou se levariam também a intenção de o roubar. O facto é que não o roubaram e deixando uma avultada quantia de dinheiro em sua casa.
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Finalmente a PIDE encontrava na guerrilha um erro político crasso ao actuarem em terras de Portugal e simultaneamente podiam por fim dar nome e personalizar “os atracadores” num nome, que até já era conhecido na região: O Juan.
 
Embora se saiba que a passagem do Juan pela guerrilha foi breve e nunca foi chefe de nenhum grupo de guerrilheiros, a partir da morte do Pinto de Negrões, o Juan passou a ser a guerrilha em si, ou melhor o “atracador” em si e o chefe de todos os atracadores e atracos, a PIDE encarregava-se da publicidade.
 
Este erro da guerrilha ou de um grupo da guerrilha viria a trazer-lhes trágicas consequências. Começaram por perder os apoios que tinham do lado de cá da fronteira e, aos olhos do povo, deixaram de ser “fuxidos” ou contrabandistas simpáticos, homens de honra até, para passarem a ser olhados com desconfiança e, aos olhos de alguns, como os autênticos bandidos, bandoleiros e atracadores perigosos, que matavam pessoas, isto nas aldeias de acolhimento, porque fora delas e graças à PIDE e imprensa da época, quase sempre foram vistos como atracadores.
 
A partir de aqui tudo foi diferente para os guerrilheiros galegos e começou-se a desenhar e organizar por parte da PIDE, conjuntamente com as autoridades espanholas de Franco, o ataque aos guerrilheiros. Mas antes ainda era preciso acabar por “fazer a cabeça” da população e, ter dela também o apoio de modo a justificar o que se viria a passar, reforçando que o Juan era um líder e chefe de atracadores (que nunca o foi) e outras maldades que eram atribuídas aos guerrilheiros.
 
Em 29 de Outubro de 1946 acontece o caso do assalto à carreira de Braga-Chaves, cheia de passageiros que se dirigiam para a Feira dos Santos anual de Chaves, encenado, ao que tudo aponta pela anti-guerrilha, pela Brigantilha de Franco e pela PIDE, no qual durante o mesmo houve o cuidado de encenarem a culpabilização do Juan e do seu suposto grupo: «D.Juan, mato lo chofer?» Ao que o presuposto Juan respondeu: « Nom. Pincha los pneumáticos.» conforme passagem já aqui focada no primeiro post desta série dedicada ao Cambedo, no livro de Bento da Cruz – O Lobo Guerrilheiro.
 
Uma vista de olhos pela imprensa da época é suficiente para ver a quem foram atribuídas as culpas.
 
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Com todas estas encenações e, a preocupação das autoridades personalizarem no Juan um chefe dos “atracadores”, tudo leva a crer que as autoridades e a PIDE conheciam perfeitamente quer o paradeiro certo do Juan como o próprio Juan, o Garcia e o Demétrio. Como o sabiam!? Acho que é uma pergunta de fácil resposta, mas também para ficar sem resposta, embora se saiba da possibilidade dos mendigos e contrabandistas (PIDEs) infiltrados nas aldeias da raia, penso que toda a leitura da guerrilha passou também por denúncias à qual não teria sido estranha a actuação, o incentivo e, o fomentar da denúncia dos “espanhóis” por parte de um grande inimigo da guerrilha ou dos vermelhos, alinhados com o regime de Salazar, como o foi a imprensa da época e principalmente o jornal ERA NOVA de Chaves e o seu director Luís Borges Júnior, tenente e depois capitão, administrador do concelho de Chaves, inspector delegado da Polícia Internacional (PIDE), instrutor da Legião Portuguesa e Presidente da Câmara desde 1938. Diz dele quem o conheceu que era um homem de ambição desmedida, sempre pronto a cair nas graças do regime e ao qual (SIC testemunho anónimo) – «um …,  queninguém gramava!». Isto é só um bocadinho do que dele se diz, por exemplo num dos livros de leitura obrigatória sobre a guerrilha «O Barroso e a Guerra Civil de Espanha», Cadernos Culturais, Edição da Câmara Municipal de Montalegre, 1981
 
Curiosamente e misteriosamente, todos os jornais ERA NOVA da época, desapareceram do arquivo da Biblioteca Municipal de Chaves, só me sendo possível chegar até ele, por algumas transcrições feitas nos referidos Cadernos Culturais.
 
A partir do caso do Pinto de Negrões e do Assalto a carreira de Braga-Chaves, a PIDE e a Guarda Civil (leia-se Salazar e Franco) tinham todas as condições para organizar um ataque à guerrilha e aos seus paradeiros.
 
Assim, e segundo o relato mais entusiasta dos acontecimentos, vamos até ao livro Guerrilheiros Antifranquistas em Trás-os-Montes de Bento da Cruz para saber o que se diz ao respeito:
 
“ Às zero horas desse dia (20 de Dezembro de 1946) concentraram-se no posto de Chaves uns duzentos  guardas-republicanos vindos do Porto (?) - (a interrogação é minha, à frente se perceberá) da Régua e de Vila Real.
 
O comandante dividiu-os em grupos e destinou um para cada uma das seguintes povoações: Nantes, Mosteiró de Cima, Sanfins de Castanheira, Sanjurge, Couto e Cambedo.
 
Partiram às três da madrugada.
 
O do Cambedo era chefiado pelo alferes Mota de Freitas. Nele iam integrados os pides Otelo Puga e Joaquim Alves, aquele vindo do Porto e este a prestar serviço no posto de Vila Verde da Raia.
 
Até Vilarelho, foram de camião. Daqui para a frente, a butes.
 
Chegaram às seis. O alferes Mota de Freitas postou o pessoal à entrada e à saída da povoação, na frente e nas traseiras das casas suspeitas, a saber: a da Escolástica, a do Adolfo, a do Mestre, a do Silvino e a da Engrácia.
 
Mas o pessoal de que dispunha não chegava para as encomendas.
 
Na da Engrácia, a primeira à direita de quem entra no povoado, no sentido sul-norte, ficou apenas o pide Otelo Puga de vigia à porta da rua e um guarda-republicano nas traseiras.
 
Pelas sete horas, o alferes Mota de Freitas e o pide Joaquim Alves, vêm comunicar que está tudo apostos para um ataque surpresa ao romper o dia.”
 
Paula Godinho, na já mencionada Revista História afirma no entanto que:
 
- “ Para realizarem o cerco, as autoridades haviam recorrido a uma panóplia de forças de que excluíam as que localmente representavam o Estado. Assim, encontravam-se presentes elementos da Guarda Nacional Republicana de Alijó, Chaves, Mesão Frio, Poiares, Santa Marta de Penaguião, Pinhão, Régua e mesmo do Porto, soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, de Chaves, agentes da polícia e carabineiros, comandados por António Prieto Rodrigues.”
 
O sargento Cruz que comandou os soldados da secção de morteiros de Caçadores 10, num depoimento seu no livro «Cambedo da Raia 1946” diz:
 
- “ entraram nesta acção mais ou menos 1000 pessoas, mais ou menos 500 espanhóis da guardia civil e outros tantos portugueses – para além dos soldados do meu quartel, elementos da GNR e agentes da PIDE.» do mesmo depoimento ficámos ainda a saber que as tropas espanholas, do lado português, eram comandadas por um Tenente-Coronel.
 
Este último depoimento (do Sargento Cruz) é um depoimento testemunhal, pois ele esteve presente e comandou o ataque com morteiros ao Cambedo e, não é resultante de um relatório oficial da época (já sabemos como eram os relatórios oficiais). Mas além de nos dar ideia do número de militares envolvidos no ataque (e que vão de encontro aos militares mencionados por Paula Godinho e outros escritos) também nos dá a saber que os militares espanhóis estavam de ambos os lados da fronteira.
 
Há quem vá mais longe e atribua só ao lado de lá da fronteira (Galiza) mais de 1500 militares.
 
Sete horas da manhã de 20 (?) de Dezembro de 1946 o Cambedo ainda dorme mas está cercado por ambos os lados da fronteira pelos militares fiéis a Franco e militares portugueses, prontos para lançar o ataque à aldeia.
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 Após os acontecimentos do Cambedo esta foi a única notícia que saíu no jornal local  « O Comércio de Chaves»
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Ainda antes do ataque ao Cambedo vamos fazer aqui um aparte quanto à data do ataque, pois segundo toda a documentação que consultei, surgiram-me as datas de 19, 20, 21 e 22 de Dezembro. A data de 19 de Dezembro surge no jornal local “ O Comércio de Chaves” quando afirma no início do artigo sobre os acontecimentos do Cambedo: “ Repercutiram dolorosamente nesta cidade os acontecimentos de Quinta-Feira passada, na povoação do Cambedo” – Ora se a publicação do Comércio de Chaves é de Quinta-Feira, dia 26 de Dezembro, a tal Quinta-Feira passada tinha de ser dia 19. No entanto a mesma notícia entra em contradição quando no seu desenrolar se afirma: “A G.N.R. havia tomado conta do cerco à povoação do Cambedo e depois da sua actuação, no sábado passado”  Ora o tal Sábado passado era dia 21. Poderia ter sido um lapso, o que não deixa de ser um lapso estranho que confunde e baralha quinta-feira com sábado, ou será que no dia 19 aconteceu alguma coisa no Cambedo ou fora dele?, testemunhas do Cambedo dizem-nos que na aldeia nada aconteceu. Mas alguma coisa despoletou os acontecimentos seguintes de 20 e 21 de Dezembro. No entanto a pergunta, além de ficar, para já, sem resposta, também me deixa a pensar… Por outro lado o Sargento Cruz menciona como dias do ataque, os dias 21 e 22 de Dezembro (poderia ser uma traição da memória – acredito que sim, pois já lá vão 61 anos). Por sua vez o soldado da GNR que acaba com a vida de Juan recebe uma medalha lembrando a data de 20 de Dezembro, entretanto o registo de óbito do Juan Salgado na Conservatória do Registo Civil de Chaves, menciona a data de 21 de Dezembro (com base no necessário relatório do Delegado de Saúde, na altura o Dr. Alcino Morais e que eu próprio verifiquei), como data da morte de Juan. No entanto a maioria da documentação consultada e quase todos os testemunhos, menciona a data de 20 (para a concentração,cerco e início do ataque que duraria o dia todo, onde logo pela manhã teria morrido o Juan) e dia 21 (continuação do ataque ao Cambedo que finalizaria ao fim da tarde deste dia com o suicídio do Garcia e a rendição de Demétrio).
 
Embora a data dos acontecimentos tenha (pela minha parte) a mesquinhez de um pormenor, vamos tomar estas últimas datas com certas (20 e 21 de Dezembro) e que a data de 19 de Dezembro teria sido apenas lapso do “Comércio de Chaves”, embora estranho lapso esse.
 
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 Concluindo, às zero horas de dia 20 começa a concentração de militares em Chaves, partem às 3 da manhã e chegam ao Cambedo às 6 da manhã e cercam-no. Ao nascer do dia os militares destacados para a operação estão em posição à volta do Cambedo e das casas suspeitas e, iniciam o ataque, que daria em combate, que decorrem durante todo o dia e noite de 20 para 21. Continuam durante todo o dia de 21 até ao final da tarde, por volta das 17 horas.
 
Embora não se saiba ao certo quantos militares iniciaram esta operação no dia 20, suponho que apenas umas dezenas, entre GNR, Guarda Fiscal e PSP, além dos agentes PIDE, logo nas primeiras horas e já após a morte de Juan, deram-se conta que precisavam de reforços, que foram chegando ao longo do dia, entre os quais a secção de morteiros do exército. Ao todo, mais de 1000 militares, entre portugueses e espanhóis da GNR, Guarda Fiscal, PSP, PIDE, Exército (secção de morteiros) e Guarda Civil (espanhola), isto só do lado português para cercarem e atacaram o inimigo do Cambedo, que nesta fase eram tantos como o Demétrio e o Garcia, pois o Juan já tinha sido abatido.
 
A julgar pelos números já se está a adivinhar uma batalha renhida, cujos pormenores ficam para amanhã, dia 20 de Dezembro, precisamente quando passam 61 anos sobre os acontecimentos.
 
Até amanhã!
 


publicado por Fer.Ribeiro às 02:15
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9 comentários:
De Paula Godinho a 19 de Dezembro de 2007 às 10:57
Está a prestar um grande serviço, mostrando com rigor algumas das fontes. Tem toda a razão quanto à forma como os agentes do regime foram «fazendo a cabeça» das populações locais, instaurando um entendimento de tal modo hegemónico dos eventos que perdura ainda hoje entre muitos. Continue!


De carla joaquim rebelo a 13 de Junho de 2008 às 01:22
gostei imenso de ler o artigo sobre a batalha de cambedo pois sou neta do soldado de 1ªclasse José joaquim que foi morto naquele dia. nunca tinha sabido exactamente o que se tinha passado realmente naquele dia. tive pena de nunca ter conhecido o meu avô pois ele faleceu quando o meu pai manuel joaquim tinha apenas um ano. gostava que corrigissem o texto, ele tinha 34 anos, era casado com a minha avó filomena da conceição e deixou um filho com um ano de idade. a grande tristeza do meu pai foi nunca ter conhecido o seu pai. O meu avô deixou descendência, três netos que todos os dias olham para as suas fotografias, a única recordação que temos dele. essa guerra foi injusta para ambos os lados, para aqueles que lutavam pela sua liberdade e para aqueles que apenas cumprindo o dever perderam a vida. agradeço-vos imenso o artigo que publicaram pois já há muito tempo tinha curiosidade em saber o que se tinha passado com o meu avô. posso dizer-vos que ele era conhecido pela pessoa mais bondosa à face da terra no povo de balsemão, freguesia da sé em lamego. um abraço e por favor corrijam o pequeno erro que eu encontrei. obrigada pela atenção e até à próxima.


De Fer.Ribeiro a 13 de Junho de 2008 às 04:02
Obrigado Carla pelo seu comentário. O seu avô, e os restantes mortos e feridos, foram todos vítimas de uma “guerra” estúpida (como todas). Uns no cumprimento de ordens e do seu dever, outros na defesa das suas convicções e, outros ainda, apanhados no fogo cruzado. Todos foram e são vítimas da estupidez dos homens que mandam e decidem, no entanto, os que sofrem, são sempre os inocentes que morrem no campo de batalha e e os seus entes queridos que sofrem para todo o sempre uma perda que não sabem justificar e para os quais nunca há justiça possível.

Mais uma vez obrigado pelo seu comentário e já foi feita a devida correcção em nota de rodapé no post sobre a verdade e as referências ao seu avô.


De carla joaquim rebelo a 13 de Junho de 2008 às 19:44
Agradeço-lhe imenso. O meu pai ficou muito emocionado quando lhe mostrei o seu blog e a informação nele contida. Ele nunca imaginaria que houvesse algum artigo sobre o que se tinha passado naquele dia. Ele só sabia dos factos por alto. A minha avó, já falecida, dizia que o meu avô se tinha despedido dela dizendo que não sabia bem o que ia fazer, que parecia "os bois quando vão para o matadouro, não sabia bem o que lhe esperava". A minha avó, quando soube da notícia, ficou muito transtornada, como era de esperar, pois tinha-lhe falecido há pouco uma filha menor, que não tinha resistido a uma doença e depois perder o marido foi um choque tremendo.
Nunca conseguiu trazer o corpo do marido para a sua terra natal, pois na altura proibiram que os corpos saíssem de Chaves, por uma questão política. Não era de bom tom que se espalhasse que as forças do regime tinham sofrido baixas. A revolta da minha avó era tão grande que ela nem quis saber da pensão, nem da medalha pois nada lhe restituía o marido. O meu pai guarda a medalha e tudo que foi entregue como a carteira baleada no peito ainda com restos de sangue seco. Este é apenas um desabafo de alguém que também perdeu alguém naquela batalha. Nada nos restitui as vidas que se perderam, só nos resta prestar-lhes homenagem e aprender um pouco com a sua coragem e lealdade. um abraço e até sempre. carla


De Fer.Ribeiro a 13 de Junho de 2008 às 23:45
Carla, mais uma vez obrigado por este novo comentário que aliás acrescenta mais um bocadinho à história e aos acontecimentos do Cambedo. Se não se importar, gostaria de ter o seu contacto de mail, se entender facultar-mo, envie-me um mail para proart@net.sapo.pt.

Desde já obrigado


De Paulo Estrela a 13 de Julho de 2009 às 15:25
Não obstante já ter passado mais de um ano desde do último comentário não queria deixar de felicitar o autor pela informação que nos disponibilizou e dizer, igualmente, à D. Carla Joaquim Rebelo, que o seu avô (e outro seu camarada da GNR) foram condecorados a titulo póstumo com a mais alta Ordem honorífica nacional: a Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, grau de Cavaleiro.
Talvez já o soubesse, mas como não o referiu e é uma informação para a história da família e de que devem ter orgulho...
Aproveito para "deixar" o Alvará de concessão:

José Joaquim – grau de Cavaleiro (a título póstumo)
Alvará 1 de Maio de 1947 D.G . 111 / II Série / 1947)
Tendo em atenção a forma verdadeiramente abnegada como pereceu o Soldado nº 117/4.505 da 6ª Companhia da Guarda Nacional Republicana, José Joaquim, porque, fazendo parte das forças que em 26 de Dezembro de 1946 cercaram a povoação de Cambedo , do concelho de Chaves, onde se açoitava um grupo de bandidos espanhóis, que, pelos seus crimes de morte e assaltos praticados, traziam aterrorizadas as povoações fronteiriças, se portou com extraordinária valentia e coragem na busca que lhe fora ordenada a uma casa e no ataque aos bandidos que a ocupavam, resultando ser, neste lance de audácia e bravura, traiçoeiramente morto a tiro de pistola-metralhadora pelos facínoras.



De carla joaquim rebelo a 21 de Julho de 2009 às 23:44
Já há algum tempo que não tinha disponibilidade para visitar o blog " cambedo maquis ". Fi-lo hoje e encontrei o seu comentário. Agradeço-lhe a sua informação. Em relação à condecoração já o sabia. Aquilo que me deixou mais comovida foi verificar o respeito e admiração que demonstrou em relação à personalidade e à coragem do meu avô. Tanto para mim como para o meu pai é bom saber que, apesar de todo o sofrimento, o meu avô foi um homem de convicções e respeitado no cumprimento do seu dever. Sabe, ainda hoje os mais velhos do povo de Balsemão e aqueles que o conheceram dizem que era um homem extremamente bondoso e cumpridor dos seus deveres. São; às vezes, estas situações que nos tiram aqueles que amamos e nos deixam marcados para sempre. Apesar de nunca o termos conhecido a minha avó, enquanto viveu, contou-nos muitas histórias sobre ele. Respeitamo-lo e amamo-lo como se o tivéssemos conhecido. Não tivesse sido ele o fundador da família joaquim. Partiu mas deixou um descendente, embora bebé, digno do seu nome. Muito obrigada senhor Paulo Estrela e até breve.


De Paulo Estrela a 22 de Julho de 2009 às 21:30
Cara Carla,
fico feliz por essa memória não se ter perdido. Aproveito a ocasião para também deixar a referência a uma outra condecoração concedida ao seu avô. Possivelmente também saberá (e quiçá ainda as guarda) mas além da já citada Ordem da Torre e Espada, concedida pelo Presidente da República, também o próprio Ministério do Interior concedeu-lhe a chamada Medalha de ouro de Serviços Distintos de Segurança Pública - Despacho Ministerial de 2 de Abril de 1947 (D.G . 83, 2ª Série, 1947).
Entretanto posso-a informar que estando a ultimar um livro (em co-autoria) para comemorar os 200 anos da Ordem da Torre e Espada, haverá um capítulo dedicado a este episódio de Cambedo e, provavelmente, caso consigamos coligir mais dados (incluindo retratos), poderemos dar um pouco mais de relevância às duas vítimas mortais das forças governamentais...



De Luísa Gonçalves a 8 de Dezembro de 2011 às 02:23
O meu nome é Luísa Maria Pinto Gonçalves e sou neta daquele que o senhor chama "Pinto de Negrões". Já tinha ouvido falar na história da sua morte, através da minha mãe que é filha dele e que tinha 11 anos quando ele foi assassinado. No entanto, a história que ela me conta e que lhe contaram a ela não coincide com a sua versão, mas sim, com a "história oficial" que o senhor refere. Não sei quem tem razão, nem isso me importa. Sei também que os guerrilheiros espanhóis não seriam tão reles como os pintavam. Apenas sei por informação da minha mãe que o meu avô nunca trabalhou no volfrâmio, não conhecia o tal Juan e homem que o senhor chama de inocente tinha desde há muito tempo querelas mal resolvidas com o meu avô. E, como o senhor disse e muito bem, não assaltaram a casa para roubar mas sim para matar e sabiam muito bem quem queriam matar. Entretanto, apenas quero deixar aqui registado a tristeza e o trauma de uma família que fica sem pai, 5 filhos dos quais a minha mãe é a mais nova e que, hoje, passados 65 anos, ainda recorda este episódio com imensa mágoa e ainda manifesta atitudes resultantes da sua orfandade precoce.


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