Sexta-feira, 21 de Dezembro de 2007
Cambedo - Dia 10 - Segundo e último dia de Batalha

 

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Cambedo, dia 21 de Dezembro de 1946.
 
Vamos então ao segundo e último dia da Batalha do Cambedo.
 
(continuamos com as palavras de Bento da Cruz)
 
A aurora encontra o Cambedo transformado em campo de batalha: quartel-general, elementos de ligação entre os vários sectores, tendas de campanha, trem de abastecimentos, apoios logísticos, posto de primeiros-socorros.
 
Aperta-se o cerco à antiga morada da família Bárcia, agora subdividida em três facções autónomas: a do Mestre, a da sua irmã Adelaide, casada com um guarda-fiscal de nome Octávio e a da sua prima Albertina: todas elas contíguas e comunicantes entre si pelos respectivos quinteiros.
 
O pide Vitorino Aires, um agente da PSP e um guarda-republicano conseguem entrar nos baixos da casa da Albertina. Mas ao tentarem subir ao primeiro piso, ouvem zunir as balas rente às orelhas e põem o corpinho a salvo.
 
Então o comandante manda evacuar todas as casas em volta do quarteirão dos Bárcia, que vai ser bombardeado.
 
Os soldados de Caçadores 10 instalam-se num morro rochoso sobranceiro à povoação, a uns cento e cinquenta metros para nascente, e despejam uns trinta morteiros sobre o alvo.
 
 
A folhas tantas, aparece um homem de pistola-metralhadora em punho em cima dum telhado. Os artilheiros apontam-lhe os canhões. O homem desaparece. Os morteiros calam-se. O silêncio no quarteirão é tão profundo e prolongado que todos se convencem de que os bandoleiros estão todos mortos.
 
Aperta-se de novo o cerco. O pide Vitorino Aires e três polícias adiantam-se para o reconhecimento. São recebidos a tiro e recuam. Felizmente para eles, sem mazela de maior. Apenas um pequeno arranhão na face do pide, causado por uma pequena lasca de pedra que saltou sob o impacte de uma bala. À vista disto, o comandante manda alargar de novo o cerco. E os morteiros recomeçam.
 
A dado momento, grande alarido do outro lado da rua. O comandante manda fazer sinal aos soldados para suspenderem o bombardeamento e acorrem todos a ver o que era. Um rebo, que um morteiro fizera saltar de um muro, atingira um agente da PSP no peito.
 
Correm com ele em charola para o posto médico.
 
Reata-se o bombardeamento.
 
Ao cabo de uns setenta morteiros despejados sobre o quarteirão, dele não restam mais que ruínas fumegantes.
 
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Um dos morteiros disparados no bombardeamento que não rebentou e foi posteriormente desarmado.
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É tempo de apalpar de novo o terreno. Ansiosos por mostrar serviço e subir na hierarquia, os pides estão sempre na brecha. Vitorino Aires, acolitado por um grupo de agentes da PSP e guardas-republicanos mais afoitos, entra no pátio da Albertina e descarrega uma rajada de pistola-metrelhadora contra uma porta que ainda se encontra intacta e fechada.Como ninguém responde, avança para ela.
 
De chofre, vem detrás da porta uma descarga traiçoeira. O pide dá um corcovo instintivo para o lado e corre para trás de uma parede. Sente um arrepio na perna esquerda. Levanta a perna da calça para ver o que era. Uma bala que lhe varara a coxa de lado a lado, logo acima do joelho. «Olha que sorte!» - suspira ele, ao reparar em mais cinco buracos no sobretudo... Como certos animais que se encarniçam à vista de sangue, volta à carga, desta feita contornando o muro pelo lado de fora, não fosse o diabo tecê-las. Repara num rombo de morteiro na parede, que se lhe afigura no enfiamento da porta donde havia sido alvejado. Mete o cano da pistola-metralhadora no buraco e despeja o carregador.
 
Enquanto aguarda resposta, ouve alguém gritar:
 
- Lá vai um!
 
Volta-se e enxerga um indivíduo a fugir em direcção ao monte. Lança-se-lhe no encalço. Mas já um guarda-republicano traz o homem catrafilado pela gola do casaco. Apenas um pacífico habitante do Cambedo que, aterrorizado com tanto morteiro e tanto tiro, dera às de Vila Diogo.
 
Como a perna continuasse a sangrar, o pide requisita uma toalha e atalha. Os camaradas levam-no, quase à força, ao posto de primeiros-socorros. Um médico faz-lhe o primeiro tratamento e aconselha a evacuação para o hospital de Chaves. O ferido jura que não sai do Cambedo sem se vingar. E volta ao campo de operações.
 
Mas eis que a perna se lhe inteiriça e recusa a andar. Embora contrariado, o Vitorino Aires consente na evacuação.
 
A esse tempo, já os agentes da PSP especializados em bombas incendiárias haviam conseguido lançar fogo ao que restava do palheiro e afins. Do montão de ruínas restam apenas um lagar e um pequeno forno intactos, a poucos metros um do outro. Conseguem colocar metralhadoras no enfiamento dessas dependências. Estabelece-se um pingue-pongue de tiro vai, tiro vem, que parece nunca mais ter fim.
 
Pelas dezasseis horas surge, ao cimo das escadas da casa contígua à da Albertina, um sujeito de certa idade. Prendem-no. É Primitivo Garcia Justo, pai do Demétrio. Enquanto o interrogam, o ataque ao lagar e ao forno intensifica-se. Descargas de metralhadora, granadas de mão, bombas incendiárias, disparos de carabina. Os espanhóis vão respondendo. Parcimoniosamente, como quem poupa munições. Até que se calam de vez. Os atacantes suspendem o fogo e aguardam, prudentemente.
 
Nisto, aparece à boca do forno um lenço branco. Pouco depois sai o Demétrio, de mãos no ar. Primeiro algemam-no. Depois esbofeteiam-no. Perguntam-lhe pelos companheiros. Responde que lá dentro está só o cadáver do seu camarada Garcia, que se tinha suicidado. (…)”
 
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Acho que depois de tudo isto que é dito por Bento da Cruz, está mesmo tudo dito, ou quase. Façamos então o resumo dos acontecimentos:
 
Uma aldeia da raia com o nome de Cambedo Raia, 89 fogos, 310 habitantes, 3 guerrilheiros. Cercada por ambos os lados da fronteira por mais de 1000 militares e PIDE. Na batalha, os 310 habitantes civis recolhem-se como podem no entanto uma criança é ferida. Mais de 1000 militares (portugueses e espanhóis) primeiro contra 3 guerrilheiros. Nas primeiras horas de dia 20 Juan é morto, restam 2 guerrilheiros. O combate continua e dura quase 48 horas (mais de 1000 contra 2). De um lado todo um exército, com armas automáticas e pesadas, do outro, 2 guerrilheiros e no meio disto tudo, toda uma população, crianças, mulheres e homens, aterrorizados.
 
Resultado do fim de batalha: Dos três guerrilheiros - 1 é morto (Juan), 1 guerrilheiro suicida-se (Garcia), 1 guerrilheiro rende-se (Demétrio). De parte dos mais de mil militares – dois militares da GNR mortos ( José Joaquim e José Teixeira Nunes) e alguns feridos (poucos), um em estado grave. De parte dos civis, uma menina ferida (Silvina Feijó) com um tiro numa perna. Três casas destruídas e vários palheiros incendiados…e muita gente presa.
 
Tirem daqui as conclusões que quiserem. Eu estou com um dos naturais do Cambedo que há dias me dizia – «Uma vergonha, aquilo foi uma vergonha!»
 
Na realidade a batalha do Cambedo foi uma vergonhosa, desigual, pouco inteligente e evitável batalha na qual os inocentes e civis do Cambedo, foram apanhados sem serem ouvidos, nem achados e nem mesmo considerados. Uma vergonha batalha para os regimes de então, de um e outro lado da fronteira. Vergonha para a PIDE que teve de recorrer a todas as forças militares e militarizadas, exército com armamento pesado e digno de uma guerra a sério contra apenas três guerrilheiros, que lhes deram luta enquanto tiveram munições. Para estes últimos, guerrilheiros, vai a honra e valentia da batalha do Cambedo, guerrilheiros que lutaram até à última bala por uma Espanha livre e que deram a vida por ela, excepção para Demétrio, que não perdeu a vida com a morte, mas perdeu-a como homem livre, mas que mesmo preso, desterrado e torturado pela PIDE nunca vergou e sempre mostrou a postura de “Um Senhor” que lutou pela liberdade.
 
Bento da Cruz numa das passagens do seu livro diz que ninguém ia a contar com mortes, também eu estou em crer que sim, que a PIDE pensou que o assunto do Cambedo era “trigo limpo, farinha Amparo” e menosprezou a força de quem luta por uma causa e até pela própria vida e quando se deparam com a resistência dos guerrilheiros, de entre todas as opções que poderiam ter tomado, optaram pela menos correcta e da qual resultaram 4 mortes e vários feridos, além da destruição de várias casas, palheiros e bens materiais, além do mais grave de tudo, terem aterrorizado toda uma população e ter feito de uma pacata aldeia um autêntico campo de batalha, com recurso ao exército e às suas armas pesadas. Aquilo que foi uma vergonhosa, desigual, indigna e precipitada batalha, sem respeito pela gente inocente do Cambedo (mulheres e crianças) e pelos seus bens, resultou no fim dos acontecimentos e oficialmente numa gloriosa vitória, com promoções e condecorações enquanto que para o povo do Cambedo, em vez de um justo pedido de desculpas, foram presos, obrigados a arcar com as culpas e vergonhas, marcados como vermelhos e perseguidos durante mais três décadas, quando a sua única culpa foi terem, inocentemente, sido hospitaleiros e terem no seu seio vizinhos, amigos e familiares.
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Ainda hoje perduram as ruínas da batalha de dia 21 de Dezembro de 1946
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Já passaram 61 anos sobre os acontecimentos do Cambedo e nunca foi feita justiça ao povo do Cambedo. Silvina Feijó arcou toda a sua vida com um ferimento de “guerra” que lhe deixou mazelas desde os seus 12 anos de idade, nunca foi compensada por isso nem sequer teve um pedido de perdão. Silvino Espírito Santo foi privado da sua reforma, tinha mulher e cinco filhos, era o seu sustento e nunca foi provado qualquer envolvimento com a guerrilha, mas era Guarda Fiscal reformado, vizinho e familiar da família de Demétrio, razões mais que suficientes para aos olhos do estado de Salazar ser culpado e privado da sua reforma. 18 pessoas do Cambedo foram presas e torturadas pela PIDE e embora alguns tivessem saído em liberdade, passaram meses nas masmorras da PIDE.
 
Curiosamente após o 25 de Abril, o povo do Cambedo, os envolvidos, perseguidos e prejudicados, em vez de reivindicarem justiça, humildemente, entraram em estado de amnésia e puseram uma pedra sobre os acontecimentos de 1946. O esquecimento já era por si uma bênção, mas o povo do Cambedo nunca voltou a ser o mesmo.
 
Estranhamente (ou talvez não) por parte das autoridades e personalidades do pós 25 de Abril, quer nacionais quer locais, também nunca houve um abordar dos acontecimentos do Cambedo, foi como se sobre esta aldeia e o seu povo tivesse caído um enorme manto de silêncios e nada tivesse acontecido no Cambedo, pois nunca houve uma simples palavra que fosse, oficial, a pedir desculpas ao povo, que foi mártir, desta aldeia.
 
A pouca justiça que tem sido feita ao Cambedo e mostras de solidariedade, vêm curiosamente do lado Galego e de um ou outro escrito, iniciativa individual, como o de Paula Godinho, ou escritos sobre a guerrilha anti-franquista que passam obrigatoriamente pelo Cambedo, como os de Bento da Cruz. Honra lhes seja feita e na qual este blog bebeu muita da informação existente sobre o Cambedo.
 
Lamentavelmente, que eu tenha conhecimento, nunca da parte da Câmara Municipal de Chaves nem de parte dos nossos nobres historiadores locais houve qualquer interesse sobre os acontecimentos do Cambedo, aliás até há queixas de alguns interessados locais que tinham intenções de se debruçarem sobre o assunto, em nunca terem qualquer apoio ou intenção de apoio para projectos e estudos sobre o Cambedo.
 
Desde o início deste trabalho que disse que o meu olhar sobre o Cambedo é um olhar apaixonado de uma descoberta que fiz percorrendo os caminhos do Juan, o tal que povoava as histórias da minha infância. Descobri o Cambedo sem ter qualquer ligação a esta aldeia e pelo mero acaso do Juan, mas desde início que fiquei surpreendido com os silêncios e as injustiças cometidas com o seu povo. Silêncios que surpreendem tanto que até alguns dos novos descendentes do Cambedo desconheciam os acontecimentos de 1946, tal como a grande maioria da população deste concelho. Espero que nestes dias tivesse dado a conhecer um pouco das verdades possíveis do Cambedo e de como o seu povo tem vivido os seus silêncios e que tal como diz a placa que os Galegos colocaram no Cambedo, entendam também estas minhas palavras como “Uma lembrança ao sofrimento do Povo do Cambedo”.
 
Mas ainda não termina aqui esta série sobre o Cambedo, pois ainda vão passar por aqui nos dois próximos dias, em jeito de homenagem, os nomes, sequelas e mazelas deixadas no povo do Cambedo e também um pouco de como a imprensa da época tratou os acontecimentos.
 
Até amanhã, vésperas de Natal e fiquem também no vosso imaginário (em jeito de reflexão) com o Natal de 1946 das gentes do Cambedo.
 


publicado por Fer.Ribeiro às 03:43
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