Quinta-feira, 13 de Dezembro de 2007
Cambedo da Raia - Dia 2 - Entender o Povo do Cambedo

 

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Mais uma vez , volto a repetir, que entro assim (apaixonadamente) pelo Cambedo adentro, em assuntos que não foram pessoalmente vividos e dos quais ainda há sobreviventes e muitas histórias contadas e por contar ou mal contadas, mas penso também que é preciso fazer justiça para com o Cambedo e as suas gentes, um povo que foi castigado, marcado e perseguido durante longos anos por apenas ter cometido o pecado de ter sido bom vizinho, hospitaleiro e por receber como ainda hoje sabe receber os familiares, amigos e vizinhos.
 
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Começa a ser tempo também de acabar com os fantasmas e silêncios do Cambedo e, de um campo de batalha, de morte, de perseguições, de uma vergonhosa e desigual “batalha” feita a pedido de Franco e a mando de Salazar, apoiado por todo um aparato militar montado nos dois lados da fronteira para “apanhar” ou matar apenas três galegos, “fuxidos”, guerrilheiros talvez, que tiveram o azar de ser escolhidos para personificar toda a guerrilha antifranquista em terras de Portugal. Uma vergonhosa batalha que ignorou toda uma povoação, crianças e o povo inocente do Cambedo.
 
É tempo também de se desacreditar todas as mentiras contadas e silêncios que o Estado Novo e Salazar impuseram ao Cambedo, às gentes do Cambedo e a todos aqueles que eram familiares, amigos, deram abrigo ou simplesmente tinham conhecimento ou, eram simples vizinhos das casas onde se abrigavam os guerrilheiros. É tempo também de se fazer justiça aos injustiçados do Cambedo e outras povoações, agredidos, presos e torturados pela PIDE, condenados em tribunais “políticos” à prisão, desterro e perdas direitos e regalias.
 
Só com a verdade é que se poderá fazer alguma justiça ao povo do Cambedo, mesmo que, muita dela e a verdadeira justiça, jamais poderá ser feita e a muitos já seja tardia, pois partiram sem um merecido perdão.
 
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Uma vista de olhos pelas palavras dos Galegos, de Luís Martínez –Risco da Daviña (que subscrevo na integra) retiradas do já citado livro “O Cambedo da Raia -1946”, em galego, conforme o original:
 
Os sucesos do Cambedo, o cerco e posterior asalto da aldea acontecido o 21 de dezembro de 1946, ben poideron ficar relegados da re-construción do discurso histórico da loita antifranquista.
 
Imposibilitando, se tal houbera acontecido, que poidesemos comprender cunha maior clarividência a colaboración entre os govemos afins de Franco e Salazar, a solidaridade dos povos da raia, as redes de apoio á guerrilla antifranquista e, finalmente, os mecanismos de represión e o alcance da mesma entre a povoación cívil. O siléncio seria o gran responsábel de que isto poidese acontecer, toda vez que co paso do tempo vaian morrendo os in-voluntários protagonistas da traxédia e non houbese sobre-vivinte algún que poidese contar de forma directa a sua história, o suceso ben poderia converterse en lenda. E se ben é certo que a nível popular e local a lenda é difícil de desmitrncar, especialmente en comunidades nas que o discurso histórico acadêmico non ten o valor de legalización que si ten noutros niveis, no debate historiográfico ese siléncio seria o grande aliado daqueles que, ainda despois  de o povo ter falado, recorren á documentación oficial para, des-contextualizado o suceso local da globalidade na que está inserido, poder criminalizar aos guerrilleiros, e a aqueles que os apoiaron, ao convertí-los en simples bandoleiros e, deste xeito, xustificar a acción punitiva e posterior represión por parte do poder.
 
Non é que os veciños do Cambedo non estivesen afectados polo suceso do bombardeo da aldea. Como acontece con calquera de nós, a sua vida, a sua história particular, está condicionada polos diversos sucesos que vivemos ao longo dela. En especial cando sofremos un impacto que vai alén do cotiá. Mais ao non facer partícipe aos demais da sua história, esta non trascende. E para re-construír o pasado nonos podemos limitar á nosa experiéncia, senón que temos a obriga de coñecer o pasado do outro suxeito, e el da nosa, e dar-lle o seu xusto valor procurando non reflexar nel as nosas conviccións e/ou pre-xuizos.
 
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Hai entre os historiadores, cada vez menos é certo, unha tendéncia a considerar o documento, en especial a documentación considerada oficial, como a proba máis fidedigna para a re-construcción do discurso histórico. E se ben podemos aceptá -lo no que fai referéncia á história oficial, non é menos certo que tamén dubidamos de que a história oficial sexa necesariamente a verdadeira. Calquera que estea acustamado a traballar na resisténcia antifranquista é coñecedor de que cómpre facer unha lectura sub-liminar da documentación oficial (tamén da documentación xerada polas forzas de oposición ao réxime do xeneral Franco), toda vez que, nos máis dos casos, cando un documento oficial fala de bandoleiros ou foraxidos, non se está a referir a un grupo de delincuentes comúns, senón o máis probábel é que faga referéncia a combatentes antifranquistas implicados nunha loita cuxa finalidade non é outra que a de restaurar o sistema de liberdades existente con anterioridade ao triunfo do golpe de estado de 18 de xullo de 1936. Nesa mesma documentación oficial, é máis que probábel que os cidadáns que, por causa diversas, acolleron a estes combatentes recibam o mesmo trato.
 
 
Ainda antes de entrar-mos pela guerrilha adentro e pelas suas causas, para melhor entendermos o povo do Cambedo, o seu envolvimento e os acontecimentos de Dezembro de 1946, temos que regressar no tempo e conhecer também um pouco da história do Cambedo, para assim ficarmos a conhecer os laços estreitos que sempre ligaram o Cambedo às povoações galegas vizinhas . Temos que entender e regressar até tempos do Couto Misto (ou Couto Mixto), até tempos em que o Cambedo era um povo promíscuo, metade espanhol e metade português, até 1846 em que no tratado de Lisboa se faz a rectificação das fronteiras. Temos que compreender a vizinhança, amizade e casamentos entre gentes do Cambedo e gentes dos povos galegos vizinhos de Casas dos Montes, Chas, Oimbra, a proximidade geográfica e a sempre ausência de fronteira entre estes povos vizinhos. Temos que entender também a guerra civil espanhola. Entender que em 1946 estávamos em plena crise do pós guerras (guerra civil espanhola e segunda guerra mundial), que em Portugal era Salazar quem mandava, que existia a PIDE. Entender que em Espanha Franco se estava a impor pelo poder das armas, dos fuzilamentos e da Brigantilha. Temos que saber o verdadeiro significado do ser guerrilheiro antifranquista, maqui e principalmente o do ser “fuxido”, saber distinguir entre guerrilheiro, “fuxido” e bandoleiro. Temos que falar também da anti-guerrilha e da PIDE e dos seus infiltrados, das denúncias e do número de mortes da guerra e do pós guerra civil de Espanha, das valas comuns, de Guernica, de Hitler, dos tempos de fome e da opressão.
 
É por aí que vamos andar nos próximos dias porque tudo isto, embora possa parecer estranho, tem a ver com a pacata aldeia do Cambedo, a 15 quilómetros da cidade de Chaves e a apenas umas centenas de metros da Galiza.
 
Vamos então regressar no tempo para assim poderemos entender verdadeiramente a realidade de Cambedo da Raia.
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A PROMISCUIDADE
 
A este respeito diz Paula Godinho na Revista História nº27 de Dez.1996:
 
“(…) Pelas suas características próprias, as ligações entre a povoação de Cambedo da Raia e o país vizinho são antigas e recorrentes, estendendo-se o leque de relações sociais dos moradores a outros tantos de povoações vizinhas de um e outro lado da fronteira. De resto, também a História nos permite configurar a profundidade destas ligações, já que nos tratados de delimitação fronteiriça do terceiro quartel do século passado esta aldeia é considerada um «povo promíscuo», atravessado ao meio pela linha de fronteira, cujo local exacto de passagem perdura na memória dos residentes. Já antes, e em resposta ao inquérito enviado por iniciativa do marquês de Pombal a todas as paróquias do País, o padre respondente apresentava a situação singular da aldeia:
«Tem uma vintena de moradores e é metade galego e metade portuguesa. Os portugueses são dezasseis e os galegos outros tantos e os portugueses são da freguesia deste logar de Vilarelho e os galegos são da freguesia de Santa Maria de Oimbra.» (…)”
 
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A promiscuidade do Cambedo resumia-se a isso mesmo, a ser metade pertença de Portugal e outra metade pertença de Espanha, mas com um só povo e, foi assim até 1864, só oficialmente, porque ainda hoje, de um e outro lado da fronteira se pode falar de um mesmo povo, com os mesmos costumes, usos, tradições e até na língua.
 
Mas antes de chegarmos a 1864, vamos passar ainda pelo Couto Mixto ou Misto, mas isso, fica para amanhã.
 
Até lá!
 

 



publicado por Fer.Ribeiro às 00:00
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2 comentários:
De riolivre a 13 de Dezembro de 2007 às 15:52
Costumo e gosto de ser o mais sucinto possível em qualquer comentário que me ocorra fazer sobre uma qualquer corcunstância.
Desta feita, apetece-me dizer que, depois de um dia de trabalho, com as boas e as menos boas coisas que isso traz, ter espaço temporal e mental para investigar e, com a tua enorme generosidade, colocar toda a informação recolhida ao dispor, mesmo daqueles que se arrogam historiadores e não fazem um corno, é obra, amigo Fernando.
Pela minha parte só posso estimular-te com um enorme abraço.


De bom detective privado a 29 de Novembro de 2011 às 02:05
bom dia !! ler isto é muito muito bom! esse artigo está fenomenal.. pachei a ser visitante frequente cempor-cento no site. abrçs


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